Passara por uma tentativa de solução e nada. Então, caiu na lupa do especialista e, depois de exames de última geração, a sentença: cirurgia. Nada muito complicado, diga-se de passagem, mas não escaparia do corte e costura. Quis fugir daquilo, dizendo internamente não um monte de vezes. Adiou por uma semana sob um pretexto razoável mas acabou passando pelo procedimento. Bem mais simples do que a fantasia esculpiu, tanto assim que foi e voltou sozinha, inteira, sem necessidade de ajuda.
Passou quieta o resto do dia. Leu Clarice um pouquinho e chegou a imaginar que a ucraniana com sotaque nordestino conseguia expressar o inconsciente em algumas falas consigo mesma. A dama do solilóquio. Se buscando para não sucumbir, linda e louca e chegada a um maltrato muito pessoal. Dia passando e o telefone quieto. Só duas pessoas a procuraram para saber se estava tudo bem. Estava.
E aí surgiu a percepção: a comunicação interpessoal mudou, empurrada pela tecnologia. Aliás, cada vez mais está difícil ver o que se passa na frente da gente. O óbvio ululante de Nelson Rodrigues de volta, de roupa nova, enfeitado com teclas e botões, mais vivo do que nunca. O óbvio que não se percebe. Ou se percebe pouco. Os velhos hábitos implodem à vista de todo mundo em meio ao turbilhão, maior na mente do que no corre-corre cotidiano. Máquinas assumem um papel importante demais na vida de todos. Estão se transformando em órgãos do corpo. Plenamente assimilados, sem rejeição.
Qualquer hora vamos contabilizar o gigantesco número de informações que nos assaltam o tempo todo. Vêm de todos os cantos, de todas as máquinas. O que fazer com elas ainda não sabemos. Então as engolimos na forma de dados dispersos dentro de nós. Não existe tempo hábil para processar o catatau que só faz crescer. Qualquer hora, a clássica pergunta quem sou eu fatalmente será acrescida de alguma coisa como: eu sou..... e as informações que carrego.
Ampliamos e muito nossos amigos. Melhor dizendo, contatos. Lá estão eles registrados no celular, nos e-mails, no facebook, no orkut e etc. São dezenas, centenas de pessoas com as quais trançamos diariamente mas parecemos longe de sentir a emoção delas, a urgência delas, a dor delas, o medo delas, a necessidade delas. O tempo é muito curto para detalhes apenas humanos porque a hieraquia colocou a informação no topo da lista. Quem manda é ela e ponto final. Não há que se questionar seu valor e utilidade. Manda. É rainha.
Por isso, se pessoas esquecem de procurar alguém que passou por uma cirurgia para um mero alô, com certeza a omissão apenas esclarece que estão situadas no novo mundo. No mundo das milhares de informações descartáveis, do clique. Nada a ver com falta de carinho ou de amizade, com insensibilidade ou indiferença. A informação que conta, pelo mesmo critério de hierarquia, mostra outra coisa. Se sobreviveu, tudo bem. Se um problemão surgisse, a informação voaria. E quem estranhar o silêncio diante de infortúnio de pequena monta, o alívio: ligue o computador e encontre os amigos animados e alegres enviando um monte de mensagens que você também vai deletar, inclusive da memória. E apenas esquecendo que, durante uma hora, naquele dia você sangrou. Mas já passou e está tudo bem.

Ledura, vc expressou fielmente a situação. Aconteceu o mesmo comigo, um pouco mais grave. E o telefone continuou silencioso. Tb, não fiz muita divulgação.Prefiro ficar sozinha, no meu canto, até voltar ao normal. O pior, é o tempo que levamos pra dirigir, sair por aí, e, principalmente, não depender de ninguém pras coisas mais corriqueiras, como tomar banho, calçar uma meia ou ir ao banheiro. Mas, a vida continua e tudo volta, mais cedo ou mais tarde, ao que consideramos nosso normal. bjs
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