sexta-feira, 11 de setembro de 2009

o primo

Quando encontro minha amiga Ana Maria e ouço suas histórias, entro num filme. A narrativa dela é visual, rica, colorida. E eu me transformo num ideal - aquela que sabe ouvir. Na última vez em que nos vimos, degustei um caso e tanto, aos pouquinhos. Estávamos só nós duas e entre cafezinho e pão de queijo, ela me deu mais um pedaço da própria vida. De presente. Agora, num exercício machadiano, vou deixar que ela conte para quem quiser ouvir e, quando ela acabar, eu volto e providencio um fecho.
_ Olha, foi naquele tempo sem turismo como indústria, o tempo da simplicidade. Nas férias, nada de hotel. A gente ia mesmo para a casa de parentes e era ótimo. Então, lá fui eu para Governador Valadares com minha prima Helena, pra casa de outra prima que eu nem conhecia, a Maria José. A cidade ainda não era o porto mineiro exportador de mão-de-obra barata para os Estados Unidos.
Dias de vida no interior com bailes, passeios à noite na pracinha, clube, rio, casa do vizinho. Nada de padre, nada de igreja. A gente não sossegava. Comíamos enlouquecidas, jogávamos cartas em casa e ríamos quase sem parar de tão bom que era. Meu primo José João estava para chegar. Um dia, pedimos para conhecer a zona e um amigo nos levou de carro. Putas integravam nosso imaginário. Queríamos ser putas pela metade, dominar a arte da sedução, saber tudo sobre os homens, saber exatamente o que fazer com eles. Só as putas poderiam nos ensinar. Chegamos perto e não vimos mulher nenhuma. Mesmo assim, valeu. A maior ousadia.
Dois dias antes de voltar para Brasília, José João chegou. Na apresentação, disse apenas muito prazer, prima, e até eu deixar aquela casa encantada não ouvi meu nome sair da sua boca. Não dizia Ana Maria de jeito nenhum. Mas ele não era primo, era príncipe. Jotajota era meio dourado, pele e cabelo, olhos verdes e intensos. Todo sério, contido, educado. Parecia até mais velho. E tinha a história de ser rico. Você sabe, se até na fase adulta a gente se impressiona com a fortuna alheia, imagina aos 14, 15 anos.
Na manhã da minha partida, ficamos sozinhos. Uma coisa sem explicação naquele entra-e-sai de gente da casa encantada. Sem mais, ele colocou as duas mãos nos meus ombros, ajustou-as com suavidade pelo lado posterior dos meus braços, e foi descendo devagar, bem devagar. Atravessou os cotovelos e acabou entrelaçando suas mãos nas minhas. Roçou o rosto no meu, me beijou com suavidade e disse bem baixo: prima... Assim mesmo, com três pontinhos, porque sugeria muito, mas muito mais. Eu só consegui ficar quietinha naqueles segundos eternos.
Quis morrer quando entrei no ônibus. Quis chorar mesmo, mas segurei. Pelo menos tínhamos combinado novo encontro em Beagá, todo mundo. Que de fato aconteceu. A maior farra, muito boteco e violão, conversas intermináveis, felicidade sem medida. E José João ali. Até destoava um pouco pela seriedade, mas sempre junto, me enlouquecendo.
Eu o ouvi sussurrar a palavra prima ene vezes e fui sentindo seus significados, me fundindo com eles. Prima era sinônimo de impulso e contenção, de falta de ar, de explosão hormonal, de pele quente, de face vermelha, de pulsação absurda, de boca fresca, de sorriso agradecido, de mãos fortes e corpos vibrantes, de cheiro bom, de fome. Prima era desejo em estado puro e apartado do resto do mundo, invadindo a gente com fúria de guerra.
Jotajota ficou ali. Nem sei explicar direito. Nunca mais o vi. Nunca mais soube dele. Mas soube como era namorar um primo, coisa muito comum na época pelo tipo de férias de todos nós. Aliás, alguém me disse que virou engenheiro. Não sei como nos perdemos um do outro. Bem, perdemos, não. Olha só : anos depois, em Fortaleza, vi um montão de vezes um homem lindo na praia. Era mendigo, imundo. Mas achava ele tão gostoso que passei a me referir a ele como José João. Mais tarde, na minha primeira gravidez, os exames não acertavam o sexo do bebê. Mas eu jurava que era homem e se chamaria, claro, José João. Mil vezes eu brinquei ao sair de casa falando a mesma frase e acariciando minha barriga: Vou levar o Zejoão pra passear. Só que veio minha menina, você sabe, a Luisa. Resumindo: jamais me afastei de Jotajota. Nada foi mais sensual e perturbador na minha vida inteirinha do que a experiência incompleta com ele. Nada.
Bom, de volta ao meu espaço, quero dizer que todas as meninas do mundo deveriam esbarrar num JJ e perder o fôlego como a Aninha. Viver o privilégio. E guardar a memória do desejo maior para reconhecê-lo numa experiência posterior. Desejos anões me parecem perda de tempo com sua validade mínima. Jamais nos contam uma boa história.

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