É velha como andar pra frente a teoria de que um autor só escreve sobre ele mesmo. A idéia vale
também para a conversa, pois falaríamos de tudo sem sair de nós. Eu acredito nisso, pois não pedimos emprestado um olhar ou um sentimento diante do cinema da vida e, portanto, contamos com aquilo que chamamos de o nosso modo de ver as coisas. Noto que muita gente escapa às vezes dessas situações porque importa do outro algumas idéias mas, se acabar por adotá-las sinceramente, dá-se uma incorporação que apenas valida esses conceitos.
Simplismo acreditar que as coisas param aí e ponto. Não é bem assim pois, afinal, ninguém duvida da complexidade do homem e da vida. Assim, nada me parece muito literal. Se fosse, apenas os grandes ecritores teriam de fato alguma coisa para contar e a existência deles seria excepcional, um abismo em relação à do resto do mundo, e nos transformaria em seres canhestros, pobres de vivência e de espírito.
Lembro agora de Grande Sertão: Veredas. A julgar que obra é a própria vida, Guimarães Rosa sofreu anos a fio por não saber se tinha ou não feito um pacto com o demônio. Graciliano Ramos machucou os pés andando descalço para fugir da seca. Machado de Assis teve uma mulher cheia de dubiedade que lhe tirou o sossego por conta de uma perversidade sutil. Chico Buarque não consegue esconder seu lado feminino tão gritante. Tomasi de Lampedusa saía de casa com um padre mas parava na zona mesmo assim. Se aponto os grandes é porque simplesmente são conhecidos. Mas também veste qualquer um, até o menino que faz a redação em sala de aula.
Mesmo assim, todos estão dentro de suas obras. E como! A alma e a linguagem de Riobaldo, bem como sua sabedoria, vêm das entranhas de Rosa, devem se misturar a tudo aquilo que ele viu e viveu e leu e observou e conversou. É ele próprio transformado numa das melhores construções da história da literatura, embora não tenha atirado em ninguém nem se apaixonado por Diadorim e muito menos sofrido sertão afora. Portanto, Grande Sertão: Veredas é Guimarães Rosa; Grande Sertão: Veredas não é Guimarães Rosa.
Aquilo que chamamos de alma pode ser descrito como o conjunto imaterial de emoções, desejos, medos, raivas, delírios e fantasias comuns ao homem. Se persiste depois da morte física é uma outra história. Pois a tal da alma humana parece a mesma desde sempre, a julgar pelo que nos conta a mitologia. Cada época forja seus mitos e a que vivemos agora talvez venha a se traduzir mais tarde no modo como a tecnologia, das viagens espaciais ao mundo da informática, interferiu no comportamento e na mente. Mas a mitologia clássica, que se estende muito além da Grécia e é toda ela muito parecida, como mostram os estudos comparados, insiste que a mente humana é a mesma, independente do local onde nasce o indivíduo. A prova cabal está nos conceitos da psicologia e não custa lembrar que Freud valeu-se do aparente caos mitológico quando apontou o inconsciente, chegando a usar nomes de seus personagens, como Édipo e de Eletra. Somos todos parecidos porque nossos problemas se assemelham.
Há também um conceito oriental que me parece curioso e, de alguma maneira, marca encontro com a mitologia em algum lugar: a existência da mente universal. Ela se traduziria por pensamentos que circulariam com extrema velocidade pelo mundo através de ondas e visitariam todos nós sem exceção. Explicaria, por exemplo, o motivo pelo qual alguma coisa aporta na cabeça da gente independente da nossa vontade, como a possibilidade da queda de um avião com alguém do nosso afeto lá dentro. Qualquer coisa como mente selvagem, fora do nosso controle, mas que também nos uniria de alguma forma como pessoas capazes de sentir as mesmas emoções, boas ou não.
Por essas e outras, criadores e personagens me parecem farinha do mesmo saco. Eles colocam em algum lugar o somatório do que julgam ser, do que sentem e pensam conhecer, reunem nos desvãos da mente o que parece seu e o que não parece, são heróis e seres deformados como a medusa, o bem e o mal em carne e osso, ganham dos seus irmãos do mundo um monte de pensamentos, alguns muito desaforados, através de ondas invisíveis. Duvidam, com o auxílio da física quântica, da existência real de uma simples cadeira. Se olham para cima no alto de um morro, enxergam o céu; se na direção contrária, a vista é outra, embora estejam no mesmo lugar. Enfim são o que somos: nada. Por este caminho, biografia pra valer, portanto, nem existe. Apenas histórias.

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