A Copa do Mundo começou e me deu vontade de escrever sobre futebol, um assunto que conheço de ouvir falar. Aí bateu um desconforto. Escrever o quê? E a inibição me silenciou por duas semanas. Sempre soube que é melhor calar do que falar bobagem, lição comum aos mortais. Só que ninguém aprende uma loucura dessas e todos falamos bobagens pela vida afora. Inimaginável alguém que é só conhecimento, adequação e coerência em suas falas. Seria um ET de verdade.
Livrei-me de um peso e de uma suposta obrigação ao perceber que, independente de teorias, numa Copa o que vale mesmo é o gol, e qualquer menino de dois anos entende a bola na rede. O resto é conversa fiada. Não importa o conceito metafísico de impedimento, tão cruel para as mulheres, não importa se o juiz deu a maior mancada, não importa se o técnico não escalou os jogadores A e B, se o esquema tático não funcionou naquela partida, se a jabulani tirou o brilho das cobranças de faltas. O grito de gol, soberano, cala qualquer teoria.
Talvez por ser na África, esta é a mais colorida das Copas de que me recordo. O desfile de fantasias dos torcedores até lembra o carnaval e é gostoso ver as torcidas brincando longe de qualquer violência. Legal também observar os técnicos. O Maradona me extasia com sua alegria de bufão, com seus beijos na seleção argentina, com seu ar de esperança pura de chegar lá. Já o nosso é todo contenção, cara feia. Acho que, quando ganhou o apelido, trocaram de anão da Branca de Neve. Deveriam ter optado por Zangado. Dunga não casa com ele.
A Copa essencialmente passa uma energia polarizada. O gol realizado se opõe ao gol sofrido. A alegria de uns é a tristeza de outros. Sempre. Ainda bem que dura pouco e os sentimentos por ela provocados são impermanentes. Assim, ninguém ficará deprimido por quatro anos ou feliz pelo mesmo tempo por causa dos resultados.
O mais incrível é o poder de contágio proporcionado pela vitória. Ela bate no peito da gente como um chute forte de bola e atinge o conjunto de células com dor zero. Vai criando um exército gigante de seres felizes numa união tão forte que não se enxerga nada mais além do prazer e da vontade de pular, de abraçar, de beijar, de comemorar. Milhões de sorrisos como se um só fossem. Ganhar uma Copa é alcançar a unidade de um país temporariamente. E então a gente se curva diante da genial definição de Nelson Rodrigues:"A Copa do Mundo é a pátria de chuteiras".
A Copa saculeja emoções. Dá um medo danado de perder o jogo. Uma vontade delirante de vencer. Um vencer coletivo que camufla a esperança pessoal ali embutida. Amamos nossos jogadores, eles mexem com o nosso coração. Dá uma vontade raivosa de mandar no técnico. Amplia o gosto pela discussão. As cidades mortas durante as partidas dimensionam o interesse que desperta. Um gigantesco acontecimento e ponto. Um oceano de desejos. E como proporciona a oportunidade de a gente ser levado pelo sentimento e só por ele, fecha em grandeza. A Copa do Mundo é o máximo.

Oi, Leda, concordo totalmente com você! Também sinto essas coisas em toda Copa e mal tenho interlocutores a respeito porque a maioria dos meus amigos não liga prá isso. E ainda reclamam! Mas que é um grande acontecimento mundial, claro que é. Acaba sendo. É o máximo mesmo.Além de tudo, ainda podemos apreciar os maravilhosos homens de corpos e rostos que nos tiram o fôlego, como os italianos! Que maravilha! Que venham muitas Copas!
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