Conheci Chimamanda Adichie e, na hora, me identifiquei com a escritora nigeriana de 32 anos, três obras publicadas, dois prêmios literários. Ela me surgiu através de um vídeo que circula na internet abordando o perigo da história única e, em apenas 18 minutos, me convenceu de como somos todos impressionáveis e vulneráveis a conceitos martelados pelo poder, através da mídia, que nos induzem a visões equivocadas. A história única, pude perceber, é um problema político.
Ela conta que, aos quatro anos, passou a conhecer livros infantis britânicos e americanos e, aos sete, quando iniciou a vida de escrever histórias, suas personagens eram brancas e de olhos azuis, falavam muito sobre o frio, comiam maçãs, tomavam cerveja de gengibre, enfim, estavam distantes de seu país e de sua cultura. Precocemente alertada, descobriu que negros também podiam viver em páginas literárias, iniciando seu desligamento da história única.
Aos 19 anos, foi estudar nos Estados Unidos e percebeu que a colega de quarto sentia pena dela por ser africana. A moça branca não entendia como Chimamanda falava inglês tão bem, língua oficial da Nigéria, e apresentou a ela um objeto chamado fogão. Um caso de arrogância bem intencionada e piedosa. Afinal, a África é um lugar de belas paisagens e animais selvagens, povoada por pessoas incompreensíveis que lutam em guerras sem sentido, só conhecem a miséria, morrem de aids, e esperam a salvação através de um branco gentil. Nada além disso.
O primeiro relato escrito sobre a África, conta Chimamanda, vem de 1561. Um mercador londrino, John Locke, informou que os negros eram bestas sem casas e sem cabeças, com olhos e bocas no peito. Ele iniciou a tradição de contar o continente pelo lado do avesso. E esse tipo de coisa gruda tão fortemente que, 450 anos depois, o professor americano reclamou da aluna preta que seus textos careciam de autenticidade africana porque mostravam personagens semelhantes a ele, que dirigiam automóveis e não passavam fome.
Nkali , em uma língua da Nigéria, significa ser maior do que o outro, uma forma de poder, e as histórias que passam pelo conceito tornam-se definitivas depois de muita repetição. Assim, a insistência no relato negativo cria estereótipos que roubam a dignidade de povos ao enfatizar a diferença no lugar da semelhança. Chimamanda Adichie ressalta que nem sempre há mentiras, embora falte o outro lado, aquele capaz de equilibrar as histórias. E conta boas coisas da Nigéria, a exemplo de Nollywood, que produz filmes, a música de qualidade, a cirurgia cardíaca, o espírito empreendedor do povo, não obstante governos ruins, e muito mais.
A história única, mostrada com brilho e simplicidade pela escritora, produz cegueira, preconceito, e alimenta o que o homem tem de pior. Já me espantei ouvindo que pessoas nascidas em países ricos chegam ao mundo com um QI maior. Que a invasão norte-americana ao Iraque, na era Bush, serviria, no mínimo, para civilizar os árabes. Na Espanha, me perguntaram se existiam brasileiros brancos, e olha que tenho a pele muito clara, e se alguma mulher vivia fora da prostituição por aqui.
O discurso do poder é centrado na crueldade e na arrogância. Ele vai trocando de mão ao longo do tempo mas resguarda a palavra ruim, pesada. Já vivemos muitos impérios e todos eles quebraram. Se houvesse superioridade de algum lado, estariam ainda aí, impávidos. Países são apenas espaços delimitados e cheios de gente. E as gentes, sem exceção, têm dois lados, o bom e o mau, capazes de construir, no mínimo, duas histórias. Se algum povo fosse melhor do que outro não criaria deuses. Eles existem para sublinhar o que deveríamos ser e não somos, símbolos da imperfeição humana vistos pelo outro lado. E olha só, jamais um povo, do Norte ou do Sul, viveu sem pelo menos um deus. A exceção é individual, é saramaga.
Ela conta que, aos quatro anos, passou a conhecer livros infantis britânicos e americanos e, aos sete, quando iniciou a vida de escrever histórias, suas personagens eram brancas e de olhos azuis, falavam muito sobre o frio, comiam maçãs, tomavam cerveja de gengibre, enfim, estavam distantes de seu país e de sua cultura. Precocemente alertada, descobriu que negros também podiam viver em páginas literárias, iniciando seu desligamento da história única.
Aos 19 anos, foi estudar nos Estados Unidos e percebeu que a colega de quarto sentia pena dela por ser africana. A moça branca não entendia como Chimamanda falava inglês tão bem, língua oficial da Nigéria, e apresentou a ela um objeto chamado fogão. Um caso de arrogância bem intencionada e piedosa. Afinal, a África é um lugar de belas paisagens e animais selvagens, povoada por pessoas incompreensíveis que lutam em guerras sem sentido, só conhecem a miséria, morrem de aids, e esperam a salvação através de um branco gentil. Nada além disso.
O primeiro relato escrito sobre a África, conta Chimamanda, vem de 1561. Um mercador londrino, John Locke, informou que os negros eram bestas sem casas e sem cabeças, com olhos e bocas no peito. Ele iniciou a tradição de contar o continente pelo lado do avesso. E esse tipo de coisa gruda tão fortemente que, 450 anos depois, o professor americano reclamou da aluna preta que seus textos careciam de autenticidade africana porque mostravam personagens semelhantes a ele, que dirigiam automóveis e não passavam fome.
Nkali , em uma língua da Nigéria, significa ser maior do que o outro, uma forma de poder, e as histórias que passam pelo conceito tornam-se definitivas depois de muita repetição. Assim, a insistência no relato negativo cria estereótipos que roubam a dignidade de povos ao enfatizar a diferença no lugar da semelhança. Chimamanda Adichie ressalta que nem sempre há mentiras, embora falte o outro lado, aquele capaz de equilibrar as histórias. E conta boas coisas da Nigéria, a exemplo de Nollywood, que produz filmes, a música de qualidade, a cirurgia cardíaca, o espírito empreendedor do povo, não obstante governos ruins, e muito mais.
A história única, mostrada com brilho e simplicidade pela escritora, produz cegueira, preconceito, e alimenta o que o homem tem de pior. Já me espantei ouvindo que pessoas nascidas em países ricos chegam ao mundo com um QI maior. Que a invasão norte-americana ao Iraque, na era Bush, serviria, no mínimo, para civilizar os árabes. Na Espanha, me perguntaram se existiam brasileiros brancos, e olha que tenho a pele muito clara, e se alguma mulher vivia fora da prostituição por aqui.
O discurso do poder é centrado na crueldade e na arrogância. Ele vai trocando de mão ao longo do tempo mas resguarda a palavra ruim, pesada. Já vivemos muitos impérios e todos eles quebraram. Se houvesse superioridade de algum lado, estariam ainda aí, impávidos. Países são apenas espaços delimitados e cheios de gente. E as gentes, sem exceção, têm dois lados, o bom e o mau, capazes de construir, no mínimo, duas histórias. Se algum povo fosse melhor do que outro não criaria deuses. Eles existem para sublinhar o que deveríamos ser e não somos, símbolos da imperfeição humana vistos pelo outro lado. E olha só, jamais um povo, do Norte ou do Sul, viveu sem pelo menos um deus. A exceção é individual, é saramaga.

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