Invadidos por indefinições jurídicas, estaremos amanhã, dia 3 de Outubro, nas filas das seções eleitorais para participar do pleito mais confuso da história republicana. A tal da ficha limpa é um problema e tanto pois, de uma hora para outra, ladrões podem ser barrados no mundo oficial, logo eles que ignoram limites, evidenciam um grande espírito privado e querem mesmo poder e dinheiro, muito dinheiro. Essa história de ética na política, nascida longe dos gabinetes oficiais, atrapalha tudo, foge das nossas tradições, e só parece vantajosa para os escritórios de advocacia que faturam caminhões de grana. Grana roubada de todos nós.
A gente ouve por aí que o Brasil é um lixo. Que nossa gente não entende nada e elege qualquer safado em troca de uma camiseta vagabunda. Que as urnas revelam nosso subdesenvolvimento político e têm a cara da nossa ignorância. Ah, brasileiro não enxerga nada, um povinho de quinta composto por adultos ameninados que acredita em qualquer idiotice e se curva diante de poderosos porque sabe abaixar a cabeça. Isso sabe. Não conseguimos ver o processo eleitoral misturando o objetivo com o subjetivo, esquecemos nas nossas críticas que Bush governou por oito anos e Berlusconi não larga a rapadura. Não, não somos a ilha dos horrores. Temos muita companhia mundo afora.
Nada disso serve de consolo. Apenas existe e se constata. Por essas e outras caminharemos para a urna sem entusiasmo, pois nunca antes na história deste País se percebeu tão claramente a falta de paixão pelos candidatos. Se o voto não fosse obrigatório, creio que o comparecimento do eleitor seria pífio. Por aí, recolho basicamente desalento, descrença, falta de esperança. Acreditar, cada vez mais difícil. Sonhar também. Mas na horinha de votar acontece a festa. Afinal, a herança negra que amorenou o Brasil inteiro canta e dança como ninguém, não perde espaço para brincar, e ri de tudo e mais um pouco. Eleição por aqui exclui o fado, a tristeza. É preta.
A candidata presidencial Dilma Roussef, apontada por todas as pesquisas como favorita, é o caso mais curioso desse pleito. O Presidente Lula, que não é lá de muito trabalho, arregaçou as mangas e não poupou sua energia sessentona em favor dela. Trocando suas obrigações institucionais pelo palanque, terceirizou o amor popular pela pupila. E Dilma inchou, arrumadinha para fazer bonito, escondida de si própria dentro do figurino eleitoral preparado com o maior cuidado. Se candidata fora do aparato governamental que une poder e dinheiro, jamais conquistaria a cadeira número um, pois falta a ela carisma, discurso, poder de convencimento, simpatia pessoal, apelo popular, história palatável. Provavelmente ficaria naquela faixa inferior a 1% da preferência. Ou melhor: não seria indicada por partido nenhum.
O tucano José Serra passa muito a ideia de solidão e só parece de mãos dadas com o candidato ao governo de São Paulo Geraldo Alkmin. Não obstante o currículo vistoso e sem nódoas morais, não entra no coração do povo talvez por excesso de sabedoria: ele sabe tudo, é dono de todas as verdades e soluções, não precisa de ninguém para lhe mostrar caminhos. Um sujeito que se esforça demais para ser simpático.
Marina Silva, uma outra história. A dama frágil da floresta é fortíssima mesmo com o corpo mirrado, um pescocinho, a voz pequena e quase infantil. Tinha tudo para sucumbir ainda no Acre e está aí abrindo a possibilidade de um segundo turno. Ela inala e exala sinceridade, correção, amor ao próximo, ideias políticas e sociais generosas. Uma pessoa de verdade, não um produto de marketing. Não esconde a igreja evangélica nem as dificuldades para aceitar comportamentos mais modernos, mas mostra também que tais pontos de vista não interferiram na sua atuação como senadora e ministra. Sustentável por si mesma, sozinha com o Partido Verde, chegou a um patamar surpreendente. Se tivesse um empurrãozinho político - financeiro, creio que a eleição dela seria uma barbada.
E ainda temos Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL. Ele pode se dar ao luxo de dizer o que pensa e ameniza a campanha presidencial com estripulias de um duende, como, aliás, sugere seu par de orelhas. Não joga para levar, mas para aumentar o cacife do seu partido. E aproveita os holofotes para ventilar velhas ideias ainda atraentes para muita gente, como o questionamento e o não-pagamento da dívida externa. Plínio é a única alegria num debate entre candidatos.
Há bons poetas inéditos. Prosadores também. Cantores de primeira sem plateia nem gravações. Nada muito matemático no imponderável da vida, tipo 2 mais 2 igual a 4. No jogo político, a mesma coisa e as melhores qualidades não costumam definir o vencedor. Simplesmente é assim. Que pena.

"Com as mesmas letras escreve-se uma comédia e uma tragédia". A constatação de Aristóteles veste perfeitamente o figurino das eleições brasileiras, particularmente as do DF.
ResponderExcluirAqui, a loucura esgueirou-se pela frincha da moralidade. Não temos muita opção:
É rir pra não chorar; se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.
Lamentável o comportamento político e o descaso dos brasilienses.
Elegem o ex-distrital e ficha-limpíssima Reguffe como o deputado federal mais votado proporcionalmente. De quebra, dão uma 2ª chance à estabanada madame roriz, que se atrapalhou até na hora de votar.
Certamente viciada por meio século de convivência com o maridão, Weslian destrambelhou logo no 1º debate na TV: "eu quero defender toda a corrupção...", agora refrão da oposição.
É isso que merecemos? Fraude explica...
Poderíamos tb adaptar para Brasília o refrão do campeão nacional de votos - o palhaço Tiririca:
- Pior que está, fica!!!
Parabéns com ressalvas a Marina Silva. O verde que escorreu das árvores com os seus quase 20 milhões de votos está eivado do limitadíssimo criacionismo - credo dos evangélicos e dos católicos praticantes que rejeita toda e qualquer prova científica sobre a evolução das espécies. Para esta multidão de eleitores o homem foi feito à imagem de Deus. E ponto.
É como acreditar no coelhinho da Páscoa e em Papai Noel em pleno Séc. XXI.
Eles rechaçam qualquer discussão sobre aborto, eutanásia, clonagem e, por aí vai...temas há muito na agenda política dos países civilizados.
De olho na onda verde, agora todos são ambientalistas desde criancinhas.
É aquela velha história: mesmo que elevem o IDH, obras subterrâneas como esgoto sanitário não rendem votos. Já o marqueteiro PAC segue barulhento e inacabado como caríssima obra de ficção.
Nessas alturas o nariz de Dilma deve estar abarcando todo o País, tantas as mentiras petistas.
Como a candidata pretende erradicar a pobreza nos próximos quatro anos se metade da população continua analfabeta; se milhares de postos de trabalho continuam vagos por falta de capacitação; se o esgoto escorre a céu aberto e milhares de vidas são ceifadas por falta de água potável? Sem falar na discriminalização do aborto, questão fechada pro PT,que agora ela renega como Judas Iscariotes a Jesus.
Por seu lado, a tucanada terá que agradar muito e conchavar noite adentro pra convencer os desiludidos eleitores a comparecer às urnas e teclar no 45 do narcisista Serra.
Se Plínio e sua utopia ficaram na rabada a nível nacional, Toninho do Psol fez bonito em Brasília. Foi a Marina do GDF.
Se vivo estivesse, o Senhor Diretas Ulisses Guimarães repetiria: "...todo congresso será sempre pior que o anterior".
Nota zero pra justiça eleitoral. Estapeou nossa cara,tornou o atual pleito um caos de incertezas e tomou decisões de afogadilho pra agradar poderosos como roriz.
Ao invés do patriótico Hino Nacional, na diplomação de 1º de fevereiro seriam mais adequados os acordes do Adágio da 7ª Sinfonia do compositor Bruckner - usada pelos nazistas pra anunciar a morte de Hitler. Aqui, soaria como a última pá de cal na cova rasa do nosso sistema eleitoral.