terça-feira, 2 de novembro de 2010

crime e castigo

Chocou. A estudante de Direito de São Paulo Mayara Petruso pede no twitter a morte de um nordestino por afogamento porque a região teria impedido a vitória de José Serra à presidência da República. Não se dá por satisfeita e, no Facebook, questiona se as pessoas da região poderiam votar, pois fariam filhos para ganhar o "bolsa 171", o número do artigo que identifica os estelionatários no Código Penal. A moça descobre que praticou um crime contra a procedência nacional e pode ser presa por três anos. Pede desculpas e cancela seus perfis na internet. É tarde.
Depois de uma campanha radicalizada e em plena ressaca eleitoral, consegue se transformar em celebridade instantânea pela via da intolerância, do ódio, do desprezo à democracia, do preconceito. Ganhou a mídia inteira pelo avesso. E errou na matemática pois, se os votos nordestinos não fossem computados, Dilma Rousseff ainda assim estaria eleita. Com folga.
A futura advogada merece punição com estardalhaço para também inibir impulsos semelhantes aos dela e, se eu fosse juíza no processo, acrescentaria como pena adicional a proibição de pisar no Nordeste e desfrutar de todas as delícias de lá como os Lençois Maranhenses, a Serra da Capivara e o Delta do Parnaíba piauienses, a Chapada Diamantina e as piscinas naturais de Itaipu de Fora, na Bahia, as dunas de Genipabu, no Rio Grande do Norte, a beleza incansável de Fernando de Noronha. Seus pés jamais sentiriam o prazer de pisar nas águas mornas das mil e uma praias da região.
Mayara de mente cruel em tempo algum brincaria o carnaval de Olinda e de Salvador, e muito menos o São João de Caruaru e de Campina Grande. Ficaria longe do bumba-meu-boi, do reisado, do tambor de crioula, do coco, do maracatu, da ciranda, da lapinha, dos repentes, da embolada. Para ela, a festa de Iemanjá e a Lavagem do Bonfim seriam interditadas.
Desconheceria o sabor da carne de sol, do acarajé, do vatapá, da tapioca, do arroz de coco e de cuxá, da caldeirada de camarão, da manteiga de garrafa. De frutas como araçá, pitanga, caju, taperebá, cajurana, umbu, bacuri, mangaba, cacau, graviola. Perderia o direito de quebrar e comer na praia um caranguejo e um pedaço de queijo de coalho assado. Pesca noturna de camarão, nem pensar.
Seria proibido seu ingresso na Casa do Artesão Paraibano de João Pessoa e não levaria para São Paulo peças lindíssimas feitas por mãos nordestinas que desfilam em semanas de moda, integram objetos de design, decoram ambientes sofisticadíssimos e conhecem países dos quatro cantos do mundo. Não pisaria na "cidade" louca de Brennand.
Talvez a estudante de ímpetos nazistas pedisse clemência ao saber que não mais ouviria a interpretação e a composição de artistas como João Gilberto, Caetano, Gil, Bethania, Alceu Valença, Alcione, João do Vale, Antonio Maria, Assis Valente, Olodum, Genival Lacerda, Chico Cesar, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Dorival Caymmi, Fagner, Elba, Hermeto, Geraldo Azevedo, Luiz Gonzaga, Raul Seixas, Lenine, Chico Science, Torquato Neto, Armandinho, Reco do Bandolim, Xangai, Zé Ramalho, Djavan, Zeca Baleiro, Moacir Santos, Moraes Moreira, Naná Vasconcelos, Nando Cordel, Tom Zé, Pepeu, Quinteto Violado, Antonio Nóbrega, Daniela Mercury, Nana, Gal, Ivete, Margareth Menezes, Cláudia Leite, Rosa Passos, Selma do Coco, Simone, Pitty e a eterna rainha do chorinho Ademilde Fonseca. Na música erudita, nada de Alberto Nepomuceno, Paurillo Barroso, Eleazar de Carvalho.
A estudante de cabeça estranha seria barrada na porta de uma aula espetáculo do escritor Ariano Suassuna, e passaria longe das páginas da prosa e da poesia de Jorge Amado, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Zé Lins do Rego, Aluisio Azevedo, Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar. Literatura de cordel, só de ouvir falar. Jamais teria acesso a Gilberto Freyre, Celso Furtado, Paulo Freire. Não mais poderia ver filmes de Glauber, Karim, Marcelo Gomes e muito menos a atuação de atores como Wilker, Lazaro Ramos, Wagner Moura. Sem falar na graça de Chico Anisio.
Por fim, se eu fosse a juíza impediria a futura advogada que pisa na lei de conhecer, conversar, se encantar e amar a carinhosíssima gente do Nordeste, oportunidade aberta apenas para as pessoas equilibradas e, no fim da minha sentença, assinalaria que, com a menina desvairada, o pior pode acontecer. Ou, como diria o deputado Tiririca, fica.

3 comentários:

  1. Olá, adorei seu blog!! Parabéns!!
    Passa no meu também =]

    Grande abraço e sucesso!!
    Seguindo!!

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  2. "Há várias formas de conduzir uma situação. Um bom livro nos ajuda a procurar a mais sensata, a mais maleável."
    Certamente a preconceituosa estudante não cultiva o salutar hábito da leitura. Ou teria seguido a milenar recomendação do "I Ching - o livro das mutações." E não saria por aí falando tanta besteira que pode lhe custar muito caro.
    Ela saberia que os tucanos nunca desceram do muro nem pra fazer campanha eleitoral. Continuam empoleirados e se bicando desde a criação do PSDB, em 1988. O ego, sempre pia mais alto. Então, nenhuma novidade na derrota presidencial.
    A desinformada estudante esqueceu de voltar sua ira tb contra Minas Gerais - coração do tucanato no sudeste, onde Serra perdeu pra concorrente petista.
    Pela expressiva vitória estadual, vê-se que os tucanos continuam mais preocupados com picuinhas internas e seus futuros a curto e médio prazos. Nesta eleição,não foi diferente. Deram-se bem em suas bases para os governos estaduais.
    Já o presidenciável...não desceu do pedestal pra falar às classes D e E que podem descidir um pleito e adoram Lula - não só porque falam a mesma linguagem, mas porque passaram a comer mais.
    Os nordestinos da incontida ira de Mayara não estão preocupados com a biografia de ninguém. Querem é encher a barriga com muito jabá e carne de sol.
    De tal sorte,que pra concorrer com um clone de Lula não é nada fácil. É preciso muita popularidade e imaginação.
    Candidato e marqueteiros tucanos não conseguiram convencer os beneficiários da bolsa-família (que elegeram Lula/Dilma)que a semente da benesse anti-miséria foi da competentíssima antropóloga Ruth Cardoso, com a condição abandonada no governo petista que seus filhos frequentassem a escola.
    Vejam a repaginada de Dilma Roussef pra travestir-se literalmente em Lula: cortou rente os cabelos e nem usa saias pra não confundir o eleitorado do "pai dos pobres". E dos endireinhados, tb...
    Nada a ver com Marisa Letícia. Mas cairia bem a Dilma um vestidinho vermelho no dia da posse. Como broche, uma enorme estrela do PT.
    Quem sabe os cardeais do PSDB aprendam a lição e Aécio Neves destrone Lula em 2014? Com o aval de FHC - tão esquecido pelo presunçoso candidato paulista.
    O essencial, porém, será o engajamento da tresloucada Mayara Petruso como principal cabo eleitoral. Se ela não estiver muito ocupada decapitando e afogando nordestinos. E solta, é claro. Porque deserdada já está sendo pelo pai.

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  3. O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral (Machado-MG/Brasil) sem fins lucrativos distribuído gratuitamente em várias instituições culturais, entre elas: Casa das Rosas (SP/SP), Inst. Moreira Salles (Poços de Caldas-MG) e Cia Bella de Artes (Poços de Caldas-MG). De acordo com o editor e poeta mineiro Carlos Roberto de Souza (Agamenon Troyan), “o objetivo é enfocar assuntos relacionados à cultura, e oferecer um espaço gratuito para que escritores, poetas, atores, dramaturgos, artistas plásticos, músicos, jornalistas... possam divulgar suas expressões artísticas”.

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