A vasilha estava lavada, seca, com a tampa ao lado. Foi a maneira de a empregada me avisar que faltava sal em casa. Neste mundo de tanta comunicação virtual, há espaço para muitas outras também e a forma de me encaminhar o pedido de compra em três dimensões, com dispensa de bilhete ou telefonema, me surpreendeu e alegrou. Além de criatura humana nota 10, Maria Alice ostenta criatividade.
Como estava de saída, incluí no roteiro uma passada na loja que se convencionou chamar de produtos naturais, embora venda quase tudo industrializado. Queria sal marinho, como de resto são todos, mas quando atende por esse nome agrega propriedades que aquele comum, cria de supermercado, não possui. Como sempre, compromissos me aguardavam e eu não queria perder tempo.
Na prateleira, nada do que eu queria. Acabei pedindo ajuda a um funcionário que, muito gentilmente, me passou um pacote sem rótulo mas com uma etiqueta com letras muito miudinhas que não cheguei a ler. Estava num cantinho e era o último. O quilo de sal, dentro de um saco plástico transparente, indicava a embalagem improvisada da própria loja. Até parecia que o produto, novo para mim, era mais natural mesmo. Mal olhei e agradeci ao rapaz.
Entrei na pequena fila e logo chegou a minha vez. A moça do caixa passou a etiqueta naquela maquininha que o comércio utiliza, indagou sobre a forma de pagamento e me deu o preço: 45 reais. Perdão, eu lhe disse, é um quilo de sal. Repetiu a informação, acrescentando que se tratava do sal rosa do Himalaia. No intuito de me refazer do susto e ganhar tempo para pensar se levaria ou não , indaguei sobre a diferença em relação aos outros. A moça se valeu apenas da cor: "mas é rosa".
Atrás de mim, uma mulher foi logo dizendo que era um abuso e, em São Paulo, não passava de 25 reais. Até a funcionária que me atendia, demonstrando saber que dono e gerente estavam fora, entrou na conversa pra dizer que não compraria de jeito nenhum e preferia pagar 2,50 reais num mercado qualquer. Àquela altura, com os óculos escuros na mão, eu olhava o sal cheio de brilho, lindo, e o rosa me lembrou um flamingo do Atacama. Comecei a achar graça da história, a rir do sal polêmico e, ao imaginar que uma situação assim não se repetiria na minha vida, perdi a dúvida e entreguei o cartão de crédito. Foi o momento mais divertido do meu dia.
Mais tarde em casa, fui atrás das propriedades do sal e apenas descobri que um oceano ancestral teve suas águas tragadas pela terra e, no leito que sobrou, um imenso depósito do sal rosa surgiu deslumbrante. Uma história tão encantada que me mais me pareceu um mito. Entretanto, era bela demais e compensava o custo da especiaria. Naquele momento, me senti a mais chic das criaturas. Afinal, minha casa abrigava um produto histórico - ou fantástico. Um sal de griffe do Himalaia.

Leda, indiquei você para o selo de qualidade. Vá ao meu blog (http://memo-emy.blogspot.com/), para ver como a coisa funciona. Há um tempo eu te visito. :D
ResponderExcluirBjo
Leda, história divertidíssima! E da forma que você escreve, vira um primor. Delícia de texto e espero que o sal também o seja. Abreijos, Ana Maria
ResponderExcluirCom a verve habitual, seu texto aguçou meu paladar e a curiosidade de alguém sem a menor intimidade com a alta gastronomia.
ResponderExcluirAprofundei-me nos exóticos “sais gourmet” - como o seu Sal Rosa do Himalaia, e me surpreendi: existem mais de trezentos tipos de diversas cores, sabores únicos e menos 25% de sódio, extraídos artesanalmente em lugares tão raros como da espuma do mar da Bretanha ou das profundezas de minas subterrâneas na Cracóvia.
Os tais "sais de grife" mais valem pelo charme e pureza como sais de mesa. Como finalizador de pratos dizem que é um charme só.
Imagina a belezura de uma carne salpicada de rosa flamingo, azul, vermelho ou preto acetinado? Cheirando a violeta. Ou com uma indescritível flor crocante que derrete rapidamente na boca e explode os sabores dos alimentos? Que delícia!!! Não teria coragem de comer. Só admirar.
Fiquei tão fascinada, que acabei fazendo um manual prático à sua poética postagem de um sal até então do meu total desconhecimento.
Com grãos grossos, coloridos e aromatizados, não supunha existir condimentos tão encantadores. É de cair o queixo.
Jamais refinados ou moídos, poucos servem pra cozinhar. Só pra embelezar e exaltar os sabores de alimentos prontos, principalmente carnes.
Pela raridade, excentricidade, versatilidade e estética eles custam até cem vezes mais que os brancos refinados e iodados.
Entre tantos, foquei os queridinhos dos mais renomados cozinheiros: 1) Sal rosa do Himalaia – deliciosamente abordado pela autora, contém 84 minerais naturais necessários ao bom funcionamento do nosso corpo. A cor salmão brilhante vem do ferro e do manganês das montanhas do Nepal e da China; 2) Sal rosa do Peru – o mais artesanal. Colhido manualmente há mais de dois mil anos nas montanhas do Vale Sagrado dos Incas, aos pés dos Andes. É úmido, grudento e aplicado a conta-gotas; 3) Sal negro indiano ou Kala Namak – encravado em rochas vulcânicas, possui a menor concentração de sódio. Tem sabor e cheiro inesquecíveis de gema de ovo - apreciado pela cozinha vegetariana; 4) Sal preto havaiano – o negro acetinado vem da camada extra de óxido de ferro e carvão purificado - chega a tingir as mãos. Vai ao forno pra aderir o mineral. O paladar é de noz; 5)Sal vermelho havaiano – misturado à lendária argila medicinal Alae, é bastante tradicional por lá; 6) Sal azul do Irã – extraído em mina subterrânea, é dos mais raros. O tom azulado é reflexo dos cristais transparentes na luz; 7) Sal defumado – cinza e levemente adocicado, é curtido em barris de carvalho usados no envelhecimento de vinhos da uva francesa Chardonnay; 8)Sal de Maldon – em forma de pirâmide escamada, vem do mar da Inglaterra desde a idade média. Um dos mais caros porque não é colhido todos os anos; 9) Sal colorido australiano – puxado para o pêssego, seus grãos delicados e macios são extraídos do rio Murray e se formam com a neve derretida dos Alpes. Mantido em segredo por dois mil anos é dos poucos usados pra cozinhar; 10) Sal do Chipre – um dos mais versáteis. Pela textura e gosto suave é ideal pra cozinhar.
11) A mais encantadora e cara forma do tempero é a Flor de sal – “o caviar dos sais”. Com sabor de avelã, as delgadíssimas palhetas crocantes surgem de pequenos aglomerados de cristais oriundos da evaporação da água do mar. De tão delicados, são recolhidos só por mulheres nas camadas mais superfíciais e puras do mar. Usadas como enfeite dos alimentos, as cobiçadíssimas flores são encontradas tb no Brasil – na salina Cimsal, em Mossoró/RN. As produções mais famosas estão nas regiões francesas de Guérande e Canargue, em Algarves/Portugal e na inglesa Essex.
E a salmoura – mistura dos cristais de sal com água mineral é indicada para estimular o metabolismo e equilibrar o pH: reduz o acúmulo de metais pesados e tóxicos.
Com tantas maravilhas à disposição, o chef José Barattino, do restaurante paulista Emiliano, atesta que uma pitada deles dá cara nova a qualquer receita sem graça. Um luxo só que estou louca pra experimentar!!!