Ah, quero muito ser convidada para um chá de fraldas que antecipará a chegada de um bebê na casa de dois rapazes que resolveram constituir uma família. Ou então passar numa loja e escolher um presente de casamento para duas meninas que se conheceram e se encontraram uma na outra e agora só querem saber de estar juntas. Com frequência, a gente diz que o amor é lindo e não importa se ocorre aqui e ali. Importa celebrar o amor, sempre soberano.
A história homoafetiva voltou a romper barreiras e, já que existe desde o início dos tempos, motivo não há para ficar fora da sala de estar. Brigar com essa realidade não passa de cegueira e pura perda de tempo e energia. Por essas e outras, adorei ver sir Elton John, com o marido do lado, no casamento de Kate e Willian, evidenciando que a família real britânica, tradicional até a medula, não está nem aí para pequenezas e preconceitos.
Anos atrás, ao ler Memórias de Adriano, de Margueritte Yourcenar, me chamou a atenção o fato de os imperadores romanos cunharem moedas com a efígie dos meninos amados. Romances assim, contou a autora francesa, eram puro prestígio para a família dos eleitos. Os donos do trono, afinal, iniciavam os efebos nas artes do amor e da guerra, verdadeira distinção. Se antes ou depois desposavam mulheres em busca de filhos, foi outra história.
Mas sinto que precisamos alargar o espaço homoafetivo ainda mais. Muito além do oficial. No dia 17 deste mês, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução estabelecendo a igualdade de indivíduos, sem distinção de orientação sexual. Placar apertado: 23 votos a favor, 19 contra, 3 abstenções. Pouco antes, em 5 de maio, o Supremo Tribunal Federal brasileiro, por unanimidade, reconheceu a união estável para casais do mesmo sexo.
Decisões verticais como essas servem para balizar ações governamentais e orientar o Poder Judiciário, mas nem sempre entram no coração do povo. Necessárias e oportunas, sem dúvida, mas insuficientes para a aceitação do fato novo. Creio que as uniões homoafetivas precisam de rituais que sublinhem as mudanças para torná-las tão naturais como os casamentos e as famílias dos héteros. Assim, devemos nos misturar cada vez mais, sem reservas.
Os homossexuais tanto podem se valer da tradição existente como criar alguma coisa nova. Isso é com eles, a opção está em aberto. Mas vai ser muito bom quando qualquer um de nós der palpites para uma viagem de lua-de-mel, enxoval, decoração da casa nova. Quando se falar confortavelmente em padrinhos e madrinhas e colunistas sociais publicarem notinhas. Quanto mais se ritualizar as uniões, melhor e mais próximo do juiz de paz. Afinal, um gran finale depois de tanta luta, tanta incompreensão, tanto preconceito é o mínimo que devemos esperar.

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