Na rua ao lado da amiga, vi a loja de empadinhas. Tenho compulsão por elas se o recheio for de palmito. Comi a primeira e, sem resistir, a segunda. Para mim é chocolate e me reconheço empadólatra. Já estendia o dinheiro para pagá-las quando a amiga me cutucou : Leva umas para casa, à noite você vai querer mais. Não segui a sugestão e estranhei na hora. Pouco depois percebi a razão do meu espanto: ela pensava gordo.
Reparei então que a gente pensa de muitas maneiras. Quem pensa magro, por exemplo, não enche a geladeira de muitas atrações. Fica muito nas frutas, legumes, verduras. Passa batido pelos embutidos e tem só um pedaço de queijo à disposiçaõ. Em geral, não se interessa muito por supermercados, comércio gourmet, grandes chefs, entra pouquíssimo na fila da padaria especial e bebe água em canecas parrudas. Magros adoram alface e chuchu. Honestamente.
Dia desses, estava num bar e uma mulher muito sensual, de vestido justo e vermelho, chamava a atenção. De repente, deu uma viradinha na cadeira, olhou sem discrição um homem moreno e abriu devagarinho as pernas. Houve um furor silencioso. Embora estivesse de calcinha, imitava Sharon Stone descaradamente em Instinto Selvagem, filmado em 1992, na cena inesquecível para uma legião de marmanjos. Ela pensava sexo.
Há quem pense pobre: guarda restinhos de sabão para gerar outra barra, corta metade da meia rasgada e usa com uma outra também saci pererê, evita celular, calcula quanto gastará de gasolina no percurso de vinte quilômetros. Acha tudo caríssimo, fala com insistência no dia de amanhã, guarda até o impossível. Confunde penúria com futuro e vive o dia a dia de olho no extrato bancário. Vida na penumbra.
Quem pensa celebridade, tem um estoque de sorrisos vitoriosos para ocasiões diversas, guarda-roupa de marca, cabelos na moda, agenda separada de festas e eventos. Corpo empinado, conversa fácil, sempre dá um jeito de chegar perto de ricos e famosos. Adora fotógrafos e os mima sem pudor e vê o cronista social como o maior jornalista do pedaço. Dedica tempo à leitura das badalações alheias por jurar que informações desse tipo são fundamentais. Parecer interessante e delicioso constitui meta, quase obsessão.
Quem pensa grande aceita cada um do jeito que é, pode até ter alguma coisa desses pensares, mas não está nem aí para miudezas.

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