A chuva pesada de hoje cedo desfez o calorão. Acordei e a manhã ainda escura. Até acendi a luz para o café da manhã. Cheguei à janela algumas vezes para vê-la cair com independência, toda rainha. Quando cessou, passava um pouco das nove horas. Olhei as poças na rua para me certificar da ausência de pingos e, minutos depois, saí para uma caminhada. O cinza do céu foi se transformando num azul hesitante.
Quando o sol invade as manhãs, a vida parece mais alegre. O calor me lembra pessoas expansivas falando mais alto e com menos roupa. Às vezes, quase nenhuma. Praia. A cidade molhada afasta crianças com bola e bicicleta, bebês em seus carrinhos, velhos em cadeiras de rodas. As pessoas apressam o passo e os automóveis desaceleram. A vida não muda, mas o cenário ganha outros ares.
Reparei que a água guardada nas folhas das árvores cai no chão sem obedecer a nenhum dos ritmos da chuva. Ao sabor do vento, do peso, da resistência e do feitio da folha. E o som é muito diferente. Uma estridência particular. Em um momento, acreditei até na volta da chuva porque um volume maior despencou na minha cabeça. Que nada, apenas passava sob um arvoredo.
Caminhar estimula idéias. O sangue ganha pressa dentro da gente, favorecendo a oxigenação do cérebro. Soube que o Chico Buarque, caminhante há décadas, bola aquelas maravilhas com que nos brinda no passo a passo. Pelo menos muitas delas. Mas conheço duas outras formas: o movimento invertido, cabeça no chão e pernas para cima encostadas numa parede por pelo menos cinco minutos, e a meditação. Ao contrário do que muitos pensam, esta última é pura técnica e um pouquinho de treino. Fácil até para o Bernardinho, o do vôlei, o estressado mais querido do Brasil.
Também percebo minha cabeça mais animada nas andanças. Hoje mesmo, passei por uma negra linda e ela riu pra mim na maior simpatia, sem dizer palavra. Na hora, me surgiu uma fada, um aladim ou algum milagreiro de plantão, não soube ao certo, e me fez a pergunta clássica. Escolhi ser uma mulher lindíssima por três semanas. Experimentar um poder desconhecido. Mas fiquei me devendo a nova imagem, que não apareceu, e percebendo que de nada adiantaria a beleza se eu não sei o quê faria com ela.
Na manhã chuvosa, não ouvi o canto dos pássaros. Ignoro se estavam calados ou se o barulho da água caindo me impediu de ouvi-los. Perto das dez horas, em plena estiagem, descontaram o atraso. Como não conheço nenhum ornitólogo, vou ficar sem saber se cantam ou não durante as chuvas e se procuram um abrigo por causa delas. Nos dias ensolarados fazem escândalo cedinho. É uma pena que o Tom Jobim não esteja mais por aqui. Com certeza recorreria a ele, mestre impecável em passarinhos. Com a informação do maestro, um mistério a menos na minha vida.

Leda, eu, particularmente adoro os dias niblados e chuvosos. Principalmente quando nada tenho para fazer e posso ficar comptemplativa, atôa, ou lendo um bom livro. Quando adolescente eu ia andar, SEM GUARDA-CHUVA, pela praia de Copacabana, onde fui criada. E niguém entendia porque eu fazia isso, então eu recomendava que fossem fazer o mesmo e veriam o porque de minha deliciosa estravagância.
ResponderExcluirBeijos!
Sonia Novaes