segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Vila de São Jorge

Saí. O computador ficou sozinho em casa por alguns dias. Sair por aí sempre é bom e o melhor, visitar ou revisitar paisagens. Olhar os lugares do mundo, um luxo. Acredito piamente que o belo é o que há de democrático. Na grande metrópole ou no acanhado vilarejo, de olhos atentos, divisa-se o belo sempre. As estradas surpreendem pela diversidade, o céu exibido em vôos mostra coloração independente. Pensando bem, o maior luxo de todos é a vida, a oportunidade de realizar e sentir de um tudo na caminhada, olhar os muitos tons de verde oferecidos pela natureza, todos os sons, milhares de vozes, emoção.
Peguei muita chuva neste fim-começo de ano na Vila de São Jorge, Chapada dos Veadeiros, Goiás. Queria entender de geografia, geologia e geomorfologia para saber por que poucas montanhas da região têm picos. Não bastasse isso, a presença de montanhas no cerrado me intriga. Parece que foram cortadas por um super facão e se mostram quase retas no topo. Me deu vontade de andar lá em cima, sem pensar em falta de equilíbrio ou queda, e ficar bêbada diante da majestade, do tamanhão, da lindura. A natureza arrebatadora sugere a idéia de Deus. Simplificando, Deus é a natureza. Só pode.
São Jorge é pequenininha e não pode crescer, salvo se permitirem que a Câmara Distrital daqui ofereça um plano diretor de obras para estragar rapidinho tudo por lá. Sem asfalto, não suja os pés de ninguém porque o solo é arenoso, clarinho. Penso que alguém muito especial abençoou a vila, permitindo às pessoas encontros naturais imperdíveis com o Vale da Lua e os parques, por exemplo, cujas imagens percorrem o mundo e carregam para lá um monte de gringos. Que ficam boquiabertos. Não é para menos.
Em São Jorge, as pessoas se assemelham pela aparência singela. Nas praias sem griffe, também. Não se vai para a chapada empetecado. Salto alto, nem pensar, literal ou simbolicamente. A simplicidade toma conta, ocupa os espaços, dá o tom. Afinal, ali, chique mesmo só a natureza. Não internaliza essa idéia os que perderam o olhar para ela ou apenas percebem o mundo pela ótica do si mesmo. Uma pobreza assim é triste, mas existe aos montes por aí. A natureza dispensa o culto às aparências, a arrumação, a decoração, a maquiagem, a produção, o botox, o silicone. Mas não perde o viço. Simplesmente é. Com sua grandeza e superioridade.
Há uma outra coisa que me agrada em São Jorge: o fato de não atrair ladrões engravatados. A gente cai nas ruas, nas barracas de venda de artesanato, nas cachoeiras, nos restaurantes e não encontra ninguém conhecido das páginas políticas e policiais dos jornais. Nem frequentadores de telejornais. Eu até admito que uma dessas figuras possa ter lavado dinheiro por lá, através de alguma pousada. Mas é puro palpite. Intuição. Afinal, fica perto de Brasília, menos de 300 quilômetros de distância.
Reveillon em São Jorge é o bicho. Ao lado de pessoas queridas, melhor ainda. Na minha festa, na Pousada- Café Bambu Brasil, alegria recorde, comida boa, bebida de primeira, música 10, gente legal. Nos primeiros minutos de 2010, enquanto abraços aproximavam mais as pessoas, houve uma queima de fogos. Corremos todos para ver a festa na rua, até a chuva deu uma trégua e surgiu no céu uma lua hesitante e embaçada pelas nuvens. Um dos presentes, diante do espetáculo, não resistiu e bancou o profeta:"Te cuida, Copacabana!"

Um comentário:

  1. Linda descrição de São Jorge! Dá uma vontade imensa de ir lá...rapidinho. E seu Ano Novo, então?
    Vc, Leda, está cada dia melhor! Vai escrever bem assim....no blog!

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