sexta-feira, 16 de abril de 2010

o clima globalizado

Nos anos de 1960, enquanto o mundo desbundava e abria caminho para a revolução de costumes que ainda acontece hoje, Brasília nascia fora de qualquer padrão conhecido entre nós mas apontava para um lado rigidamente conservador: o clima. Ninguém era surpreendido pelo tempo e a meteorologia não passava de uma ciência ociosa por aqui. Qualquer um sabia de chuva e de sol, de calor e de frio. E de ventos também.
Agora, o tempo dança e surpreende. 2010 marcou este mês de abril como o de fechamento das águas do verão, que sempre foi em março. Passou para um inverno precoce de poucos dias, ignorando o outono e, sem mais, recolheu os ventos e tenta agora levar sol e calor para as pessoas nos últimos três dias, fazendo-as acreditar que, de fato, estamos na meia estação. Mas as árvores não perderam suas folhas. Estão vestidas de verde, lindas.
A Brasília dos tempos iniciais não falhava: seis meses de chuva, seis de seca. Em 21 de setembro, a primeira água caía do céu. Ia e voltava até o início do verão quando então não abandonava a cidade nos três meses seguintes. Em fevereiro, manhãs frias pediam casacos e março aparecia com seus trovões de arrepiar. Virando abril, chuvas espaçadas e finalmente a última, no dia do aniversário da cidade - 21 de abril. A seca entrava devagar e, em agosto, quase matava. Com a chegada da primavera, cedia.
O frio era de rachar. Dava as caras em maio. De manhã olhava-se para o alto e o azul celeste lembrava o absurdo, de tão igualzinho. O vento literalmente cantava e as pessoas andavam de braços cruzados, usando-os também como agasalho. A beleza do céu brasiliense, que entrou nas canções mais bonitas e sempre foi fantástica nesse mês durante o crepúsculo, inventava mil cores e formas com seu ar de espetáculo. Até o final de agosto a cidade gelava. E então o ciclo prosseguia, impermeável a mudanças.
Mas não estamos sozinhos. O tempo mudou no mundo inteiro, transformando-se em ameaça planetária. Natureza aborrecida, homem predador, destino, azares, e coisas que a gente ainda nem sabe. Pode-se até falar em clima globalizado. Uma espécie de democracia do horror, filha da economia cega que só quer saber de desenvolvimento e lucro e acaba impondo perdas humanas e materiais. Os desastres se apresentam em série: Haiti, Chile, Rio de Janeiro, China, só nos últimos meses. A segurança foi para o espaço. Estamos livres de quê?
E outro dia me mostraram as profecias maias. Tétricas. E naturalmente questionáveis porque existentes há mais de cinco mil anos. Como preservá-las, traduzi-las e conduzi-las até aqui? Por mais tortos que os caminhos sejam, essa viagem cheira a loucura. Mas falam do que estamos vendo e garantem que vai piorar muito, apontando dezembro de 2012 como um segundo juízo final. Outras correntes místicas também abordam o fim do mundo, destruído por ele mesmo, e já me disseram que Brasília sobrará. Não seria por merecimento, concorda? Mas às vésperas do cinquentenário da capital, fiquemos com tal profecia. Para mimar Dom Bosco. Afinal, ele jurou que no quadradinho do cerrado jorraria leite e mel. Como estamos tão pertinho do fim, não custa acompanhar, certo?

Um comentário:

  1. Leda, excelente texto. Agora......leite e mel? Só para politicos mal engajados com esta cidade que é realmente maravilhosa, apesar do clima ter mudado.
    Sonia Novaes

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