segunda-feira, 5 de abril de 2010

de dar água na boca

É raro mas acontece de a gente conhecer um lugar e, à primeira vista, simplesmente gostar. Até sentir uma intimidade dentro dele, tecnicamente impossível pela ausência de passado. Coisas inexplicáveis me seduzem e, por mais que eu busque uma causa, ela não aparece. Aí é que gosto mais ainda porque mistérios fazem parte e adornam o mundo. E essa história de a ciência tentar entendimentos para tudo às vezes me entedia. Afinal, vivo bem sem ter descoberto até hoje se foi o ovo ou a galinha que chegou primeiro.
Se olharmos pelo outro lado, o fenômeno se repetirá. A antipatia gratuita por coisas ou pessoas acontece com todos nós e, na raiz, apenas a falta de lógica. Se o nosso universo desse importância à intuição e não privilegiasse cegamente a mente racional, acredito que tudo seria diferente. Mas vivemos neste planeta e se resolvermos mudar nossa ótica de apreensão das coisas da vida, fatalmente surgirá alguém e avaliará que nem somos desse mundo.
Passei a Semana Santa em Pirenópolis e caiu água para formar um novo oceano. Nas ruas, o guarda-chuva integrava os looks. Bem, já estive lá mil vezes e sempre amei a cidade colonial colorida chegada a uma festa. Mas desta vez percebi que o sol é o maior aliado do turismo porque esconde o que não deve ser mostrado. Sol numa cidade lembra uma mulher produzida, maquiada, bem iluminada na foto. Diferente dela mesma quando acorda. E Piri me pareceu menos pela primeira vez.
Mas a decepção cedeu no momento em que pisei num restaurante novo de lá, de onde se ouve a água de um rio correr mansa, chamado Montserrat. Paixão imediata, ao primeiro olhar. Gostoso de ver, de conhecer e, mais ainda, com uma comida de primeira, sem falar na adega climatizada onde os vinhos, cerca de trezentas marcas, esperam o consumidor deitados em telhas de barro. Conheci a cozinha sem improvisos, cheia de detalhes de uma grande casa, rigorosamente profissional. A louça, os talheres, os panos de mesa seguem o mesmo padrão.
Para surpresa ainda maior, esculturas e óleos de grandes artistas como Darlan Rosa, Glenio Bianchetti, Telma Parreira. E um painel de táboas gastas de onde brotam plantas variadas e miudinhas da paisagista Ligia Gili, bem ao lado da porta que separa os ambientes interno e externo do restaurante, sugerindo frescor e leveza. Ali, harmonia é sinônimo de beleza. Com aquela cara de simplicidade culta.
O chefe da cozinha e dono do Montserrat é Juan Pratginestos, um brasiliense nascido em Barcelona que abandonou a fotografia depois de muito tempo e se rendeu à velha paixão pela cozinha. Atento, cercado por profissionais que estudam gastronomia, está ali para satisfazer o paladar mais exigente com um cardápio que vai do clássico ao mediterrâneo com sotaque catalão. Aliás, o mais exigente de todos é o próprio Juan que, com sua iniciativa, levou para Piri sabores de dar água na boca.

Um comentário:

  1. Frescor e leveza a gente tem também neste texto, linda.
    Já estou, aqui de longe, pensando em como vou me deliciar com o Montserrat,

    ResponderExcluir