Espreguiçou geral na cama farta. O domingo quente e cheio de sol, o primeiro depois do inverno comprido, pedia um passeio de caiaque pelo Lago Paranoá. Ou, no mínimo, piscina. Levantou e saiu pela casa, desligou o sistema de alarme, a cerca elétrica, abriu as janelas, conversou com os cachorros, olhou os jardins. Tudo absolutamente em ordem. Na cozinha, optou por uma tapioca com café depois de comer uma rodela de abacaxi.
Gostava bastante da sua casa, cujo projeto invocado fora publicado nas páginas da Vogue e mostrado em algumas exposições dentro e fora do Brasil. Toda colorida, mostrando um triângulo quase perfeito na planta baixa. Um primor de arquitetura, assinadíssima. Escolhera móveis e objetos adequados e o resultado, pura harmonia. Bons quadros e tapetes completavam o ambiente claro, ventilado, alegre.
Fazia uns oito meses que morava ali sozinha, depois de um casamento relâmpago. Nos primeiros se sentiu bem mas, nos últimos tempos, aquela estrutura pesava. Na quadra dos 20 anos, o número de obrigações deixara o prazer para trás. Afinal, não tinha com quem dividir as compras do dia a dia, a administração de três empregados, a família canina com cinco integrantes, os cuidados com a segurança, os reparos que as casas costumam exigir, e muito menos as despesas. Ninguém das suas relações levava uma vida assim.
Para completar, começou a ter medo e sentir o gosto da vulnerabilidade. À noite, além das providências normais, levava uma cadela de grande porte para dormir no quarto, com sentimento zero de segurança, mesmo com os mecanismos de proteção eletrônica acionados. Entrar e sair da casa se transformaram em aventura perigosa e se socorria do celular: conversava com alguém até completar a rotina que antes não passava de um nada. Acabou indo além e conseguiu uma ronda policial. O desconforto aumentava quando mais uma pessoa descobria que morava sozinha. Passou a se definir como refém daquela estrutura. A gaiola dourada perdera o valor e roubara dela o principal: a paz.
Olhava para trás e percebia enganos. Antes, a vida lhe parecia um retão asfaltado, sinalizado, seguro, qualquer coisa bem infantil, tipo a mãe ali ao lado, de mãos dadas com ela. Como a maioria dos jovens, não conseguia enxergar problemas pela frente, a começar pela possibilidade da doença, as dificuldades do envelhecer, a solidão. Um pensamento mágico e bom foi rotineiro na cabeça dela ao longo da pequena caminhada e agora, como a casa tão bonita, não servia mais. Imagens quebradas à espera de substituições.
Descobria cedo demais que a conquista do ter, tão desejada pelas pessoas da sua idade, não podia ser meta solitária. Não mais a enxergava como um ideal em si e percebia as exigências do bem-estar como diversas e difusas. Já não concordava com a ideia de que chorar num Rolls Royce era melhor do que numa carroça, pois a dor doía independente do lugar, sem perda da intensidade. Queria ser mais igual às moças que conhecia, despir-se de um luxo impróprio para a liberdade. Queria simplesmente sair por aí, bater a porta, sem deixar responsabilidades aguardando suas ações. Queria voltar a ser mais menina, menos dona de casa.
Pegou o caderno dos classificados do jornal e correu atrás de uma kit para alugar. Aliviada.

Como diria o poeta e escritor acreano José Potyguara, em Terra caída "... ninguém é completamente feliz. A felicidade existe...espedaçada. Compõe-se de pequenos momentos, muitos impercebíveis. Cabe aproveitá-los enquanto podemos".
ResponderExcluirEsse amoroso texto lembra-me, tb, o eternizado cantor Charles Aznavour: "Ahhhh!!!!meus vinte anos...Ontem, então, eu tinha vinte anos... Fiz tantos projetos que agora fico perdida, sem saber para onde ir..."
Já na "Carta a D. - História de amor", André Gorz - um dos mais importantes intelectuais da atualidade, filosofa: "eu me perguntava o que era o inessencial ao qual deveria renunciar para me concentrar apenas no essencial e ser feliz..."