Há mais de trinta dias Brasília vive molhada e a chuva até parece submeter o sol a um descanso forçado, pois ele não dá mostras de querer romper no céu, conferir mais brilho e claridade aos dias, e dizer com toda força que afinal estamos no verão. A temperatura caiu, nos remete ao inverno e o povo da cidade se agasalha nas ruas. Cedo, o vento canta como um tenor pelos espaços abertos enquanto os pássaros quase silenciam.
Brasiliense nascida no Rio e acostumada ao frio seco que sempre castigou a capital, estranho muito usar meias de lã com a umidade relativa beirando os 100 por cento em pleno estio. Já ouvi várias vezes que isso se deve à uma tal de zona de convergência do Atlântico Norte ( ou é Sul?) e, sem ter dado um passo para descobrir o que isso significa além da chuva que desce sem dó, apenas me entrego ao desejo de voltar a sentir calor.
A chuva me tira o prazer de caminhar pela manhã, tempo que aproveito para sentir a cidade. Conferir mais uma árvore dos jardins públicos que um governador fantasma transformou em mato mas agora retomam a beleza. Tentar adivinhar qualquer coisa das pessoas que passam. Sentir cheiros e sons do Plano Piloto. Namorar o céu escondida atrás dos óculos escuros. E curtir pela enésima vez a forma gaiata e harmoniosa da igrejinha.
Olho a pele do meu corpo e lamento a falta de uma cor mais atraente. Até parece que moro no Hemisfério Norte. E me lembro na hora de Millôr dizendo que a cor preferida do imbecil é o bronzeado, embora não se deva levar em conta a preferência porque o resto do mundo também adora o tal do bronze. Consolo e salvação sem nenhum resultado prático, pois continuo branquela como uma polaca.
Passei rapidamente no supermercado pela manhã e perguntei para algumas pessoas o que estavam sentindo diante da chuva insistente. Acreditava que todos ficariam ao meu lado e me diriam da saudade do sol. Que nada, perdi feio. Elogiaram muito a água que cai, apontando o bem que traz para todos. Por aqui casas não deslizam e não se conhece quedas de barreira. Afinal, estamos no Planalto Central. Mesmo assim, o excesso de chuva provoca problemas em muitas moradias e o trânsito piora sensivelmente.
Mas o desejo pessoal se transforma em nada diante da tragédia de um novo Janeiro que já deixou 56 municípios do Leste em estado de calamidade pública e levou muitas pessoas à morte em virtude das águas. A gente esquece, ainda que por pouco tempo, que o prazer de um é sempre menor diante da dor de muitos. Na verdade, somos um e nem percebemos.

é, o negócio tá bravo prai! Logo passa, força!
ResponderExcluirPois é, amiga, mesmo assim , adoro Brasília em janeiro, a cidade fica mais leve, sem tanta gente, o trânsito flui,tudo fica mais fácil. Enquanto os bronzeados não retornam, a cidade é todinha nossa!
ResponderExcluirE adorei seu retorno ao blog! Estava sentindo falta de suas reflexões tão gostosas de ler, de saborear seus textos!
Amiga, o seu querido sol voltou a brilhar esta manhã. Aproveite enquanto o tempo não volta a fechar e, boa caminhada.
ResponderExcluirDe minha parte, engrosso a estatística dos que adoram nosso inverno chuvoso em pleno verão. Passei tanto calor no Sudeste que, ao me mudar pra Brasilia, não me importava mais com o rei do universo.
Queria mesmo é muita água e frio. É quando respiramos um pouco à espera dos meses super-quentes, de baixíssima umidade. Enquanto a maioria prefere morar em imóvel onde bata muito sol, gosto dos posicionados com menos luz. Talvez motivada por meus olhos claros que se resentem muito e queimam com os raios solares.
Bendita chuvarada!
Pois, estamos muito mal com o "ouro azul" do planeta - a água potável.
Vc sabia que se toda a água do mundo coubesse em uma garrafa de um litro, apenas meia gota estaria disponível para bebermos?
E, olha que cerca de 80% da superfície terrestre são cobertos por água. Mas, apenas 2,5% do líquido são doce.
E, destes, dispomos de uma inacreditável e finita quantidade: somente 0,01% é acessível pra consumo humano. O restante é gelo ou está em camadas tão profundas que não podemos contar com ela.
As projeções são mesmo assustadoras. Segundo a Onu, se nada mudar e as pessoas não se conscientizarem, dentro de quinze anos 2/3 da população do planeta não disporá de água potável.
Apesar do imenso desperdício de água doce, o Brasil é um dos maiores privilegiados: possui 12% do total mundial - porém mal distribuídos, e o rio mais caudaloso - o Amazonas.
Tb temos a maior cisterna natural de água doce - o Aquífero Guarani, nas profudezas dos estados de GO, MS, MG, SP, PR, SC e RS.
Como vê, Ledura, a água potável pode terminar um dia. Vamos torcer para que os pesquisadores encontrem logo algo pra substituí-la.
Certamente os extremistas que "vivem de luz" - não se alimentam e só tomam água das chuvas, adorariam viver em Brasilia nesta época do ano.
Uma beijoca
"Chuva política" - é a expressão mais adequada pra resumir toda a tragédia causada desde sempre pelas enchentes de norte a sul do país.
ResponderExcluirAs prefeituras usaram toda a verba que dispunham pra evitar as mortes causadas pelas enchentes? O que fizeram pra evitar tantas mortes? Removeram previamente as famílias que continuam morando em locais condenados pela segurança civil? Se voltam, a fiscalização não funciona. Por que continuam permitindo construções em locais impróprios e povoamento desordenado? Por que só aparecem depois do mal consumado? Onde está o bolsa moradia?
Especialistas paulistas vivem listando medidas pra impedir as desastrosas consequências causadas pelas enchentes do rio Tietê. Mas as verbas somem misteriosamente ou nem tanto, mostradas ao vivo e em cores pela TV.
Boa parte da terra natal de Roberto Carlos - Cachoeiro de Itapemirim, some debaixo dágua todo verão. Os bueiros continuam entupidos e as drenagens só em campanhas eleitorais. E assim é pelo Brasil afora. Salve-se quem puder!
Como vc registrou, Ledura, felizmente moramos no Planalto Central onde não há encostas. Mas se a chuva aperta um pouco os alagamentos surgem num piscar de olhos. Isto, em uma cidade planejada por Oscar Niemayer e Lucio Costa, porém desfigurada em muitos pontos e super-povoada. Imagina no restante do País?