Quando eu era menina, meus familiares não falavam na morte. Beirando os 30 anos, percebi que davam nós para não comparecer a um enterro e só contavam que um parente ou amigo partira dias depois. Ao rever tal situação hoje, me vem a ideia de um pacto, mas sei que nada era combinado. Os meus viviam intensamente a angústia da morte, reagiam muito mal ao fato inexorável e, então, fugiam.
Os estudiosos do assunto garantem que o temor é generalizado e camuflado inconscientemente no mundo ocidental, pela ausência de resposta sobre a razão do corte de uma vida e o que eventualmente acontece ou não depois. Morte é incerteza, desconhecimento, falta de controle no limite, e o que se fala a respeito não passa de especulação. Ou crença. Sabemos apenas que chega: quando e como, interrogações. As religiões tentam oferecer respostas, mas costumam falhar.
Tememos perder nossos queridos e tememos mais ainda ir embora. Sabemos de mortes todos os dias pelo jornal, pela tevê, pela internet, pelo vizinho, mas olhamos como se passassem longe de nós, ainda que muitas nos entristeçam. Doenças graves nos arrepiam. A história de suicídios não vai para o jornal. Quando a morte acontece ao nosso lado, a sensação é de enorme supresa, como se não fosse a contraparte da vida. Isso me lembra traição: todos conhecemos alguns casos, e quase todos se desesperam quando a vivenciam. Ambas desobedecem à lógica.
Um dos criadores da psicoterapia existencial, Irvin Yalon, norte-americano de origem russa, escreveu De Frente para o Sol - como superar o terror da morte. Ele trabalha com pacientes terminais e tenta exatamente o que diz o título do livro. Mas também faz ficção e uma de suas obras mais conhecidas é Quando Nietzche Chorou. Ele assinala nossa imortalidade porque transmitimos muito aos nossos e, como não vamos embora da memória deles, a morte nada tem de pesadelo.
Convivemos com pessoas que perderam amores fortes. E sabemos que a alegria um dia volta. Se suportamos o ficar sem, a morte não pode ser um bicho papão. E há um aspecto curioso: morte também é perdão. No geral, as imperfeições de quem vai parecem insignificantes frente às coisas boas que legaram. Por isso, não se tem notícia de apedrejamento de defuntos. Sabiamente, o homem inventou a perfeição e a colocou lá no alto, num lugar sagrado, longe dele. Para poder suportar seus desatinos e os dos outros.
Sem dúvida, a vida é bem maior do que a morte. Com tanto susto, tanto sacolejo, tanta dor, ainda não encontrei uma única pessoa que preferisse não ter nascido. Existir será sempre um deslumbramento. Mas se escrevo sobre o tema, das duas, uma (ou ambas): perdi alguém que gostaria de ter para sempre e/ou estou morrendo de medo de sumir deste mundo.

"Quem aguentaria fardos gemendo e suando uma vida servil senão porque o terror de alguma coisa após a morte - o país não descoberto, de cujos confins jamais voltou nenhum viajante nos confunde a vontade, nos faz preferir e suportar os males que já temos a fugirmos para outros que desconhecemos?"
ResponderExcluirAssim Hamelet descrevia o pavor da morte que aflige a todos: crentes, ateus e agnósticos.
Nietzche dizia que a morte perde seu terror quando se morre depois de consumida a própria vida.
Montaigne - em um de seus mais célebres ensaios iniciados pelos idos de 1.500, após a morte de seu "grande amigo", Etienne de La Boètue, sugere que nosso quarto tenha vista para um cemitério: "aclara a mente e mantém as prioridades da vida em perspectiva".
E recomenda:"filosofar é aprender a morrer porque nos ensina o destemor da morte."
Em Terra caída, o escritor acreano José Potyguara descreve a morte na visão do sertanejo supliciado pelo patrão: "toda aquela arrogância balofa, aquela perversidade sádica, aquela maldade requintada pelo simples prazer de ser mau, ali está reduzida a um corpo inerte, imobilizado pela morte, impotente para tudo..."
Montaigne nos lembra que a morte é um momento único e último para o qual toda a nossa vida converge. Então, louvemos e vivamos intensamente.
Concordo plenamente com vc, Ledura: a morte não pode mesmo ser um bicho papão se suportamos as piores dores de perdas irreparáveis e recuperamos a vontade de viver.
Mesmo se alguém voltasse pra nos contar como é lá do outro lado, de nada adiantaria porque a "foice" pode tardar, mas não falha. Nunca.
Muito boa sua análise, Leda. Vou até repassá-la a pessoas que precisam disso, neste momento.
ResponderExcluirMuito bom. Li os livros que você mencionou. É isso.
ResponderExcluirApenas seja bem vinda! Que bom que voltou a escrever!
ResponderExcluirTe amo.
Sonia Novaes1