quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

erro virtual

Luis Sergio esvaziava a caixa de entrada sem pressa. Às dez e meia da noite, a cidade parecia calada e o sono, longe de chegar. Um e-mail pulou trazendo, de cara, duas informações estranhas para ele: o assunto, herança, vindo de uma mulher cujo nome desconhecia mas o chamava de irmão. Abriu sem reservas e se deparou com onze itens numerados, quase telegráficos, que sugeriam desavença familiar.
O primeiro dizia apenas "nossa mãe morreu". Assustou-se. Não pela dele, que estava vivíssima, mas pela forma da suposta irmã lhe dar a notícia. Ele próprio se perguntou: quando? como? de quê? e o enterro? Não, não havia nenhuma explicação sobre as circunstâncias da morte. Imaginou seu xará atordoado, querendo saber bem mais do que a frase revelava, mas a mulher foi lacônica e ponto.
Os demais itens tratavam da conveniência da venda de um imóvel, aparentemente o único bem legado, e solicitavam uma procuração do legítimo herdeiro para efetivá-la. Mais: determinava um prazo para a chegada do documento, indicando que o irmão poderia morar em outra cidade e não compareceria ao cartório para formalizar a transação. Num indício de problema, um item esclarecia que, caso discordasse, o problema seria resolvido na Justiça.
Luis Sergio agradeceu pelo erro virtual e percebeu dois sentimentos: não tinha irmãos desgarrados, o que lhe soou como alívio, e preferia desconhecer a família que invadia seu computador. Não gostaria de conhecer nenhum dos seus integrantes, não gostaria de estar na pele de nenhum deles. Percebeu também que partia para julgamentos e se deu conta de que o tabuleiro de xadrez se mostrava incompleto. Freou a própria pressa sem tirar os olhos da tela.
Estavam ali o nome de todos os irmãos. Mais: havia o endereço do imóvel legado e os dados para a eventual procuração como profissão, estado civil, CPF, carteira de identidade da mulher que supunha ser irmã dele. Quis fazer daquilo puro lixo eletrônico. Imaginou o uso das informações por alguém afeito a brincadeiras de mau gosto. Pensou até em uma história sobre o xará e seus irmãos, mas se limitou a contar para uns poucos sobre sua falsa e breve família.
Noite seguinte, releu tudo e partiu para uma atitude reparadora. Respondeu ao e-mail assim: Prezada Anamarcia, boa noite. Não houve um equívoco? Infelizmente não me lembro de você.

Nenhum comentário:

Postar um comentário