sexta-feira, 4 de março de 2011

paz interior

Tempos tumultuados são ladrões. Roubam muito da gente. Não se atêm a uma coisa ou outra, pois atuam como leques abertos em muitas direções, provocando estragos em série. Esses tempos lembram uma velha história: desgraça pouca é bobagem. Imagine um cidadão líbio hoje, dia 4 de Março de 2011, tentando cumprir obrigações cotidianas em Trípoli. Como começar, para onde olhar, o quê fazer? Cada passo poderá equivaler a um tropeço.
Mas não há necessidade de uma guerra como pano de fundo e muito menos de um ditador viciado em quatro décadas de mandos e desmandos. Às vezes, a vida de uma pessoa qualquer se transforma em guerrilha e ela se depara com uma armadilha atrás da outra. Ou então em campo minado, impróprio, perigoso, surpreendente. Vira e mexe alguém nos conta que seus problemas sugerem um moto contínuo e apenas mudam de enredo. Ainda bem que uma hora cessam.
A maior roubada de todas é a da paz interior. À sua falta, tudo fica escorregadio ou se transforma em escombros. Viver um terremoto dentro do peito atinge o coração, que dispara e preocupa, afetando também o ato involuntário de respirar. Qualquer coisa fácil de realizar se transforma no oposto, qualquer dia, cinza ou brilhante, perde a beleza. O cansaço toma conta da criatura e a tristeza dá rasteiras no mais simples desempenho, dificultando até a compra do pão logo ali.
Sem paz interior, a energia dá no pé. Ela é materialmente invisível, mas qualquer um pode constatá-la. Imagine duas crianças brincando. Basta observar menos de um minuto para descobrir qual das duas é maior no quesito. A energia move pessoas e animais. Aliás, move o mundo, de diferentes formas. No homem, sua baixa violenta leva à depressão, com seus tentáculos paralisantes e íntimos da falta de ânimo para viver a vida.
Os subprodutos da situação emocional negativa são muitos. De peso, surge a queda da imunidade. Assim, o corpo - que faz par com a mente - muitas vezes padece. Gripes e resfriados oportunistas se apressam e tomam conta. E isso é o de menos, pois fungos atacam, bactérias ganham força halterofilista e facilitam inflamações, e males mais graves parecem vir do nada. Talvez por isso a medicina já fala assim no mundo todo para o paciente: você fez uma ...Uma gastrite, por exemplo.
Estresse virou palavra do dia a dia e um simplificador de dificuldades. Até parece que o ruim só vem dele. Responsabilizado por quase tudo, da perda do sono ao encolhimento da libido, da queda de cabelo à síndrome do pânico, da redução de coxas torneadas pela perda da massa muscular. Enfim, já temos o vilão do século XXI. Mas escondida bem atrás dele, nutrindo-o todo o tempo, enxergo a perda da paz interior, detonadora dele e do resto. Para complicar, também necessita-se da paz exterior. É, não consigo esquecer da Líbia.

3 comentários:

  1. Ledinha

    É sempre um prazer renovado beber da sua clarividência e sensibilidade.
    Também fiquei emocionado com o seu comentário lá na Moita.

    1 cheiro no cangote.

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  2. Leda

    Só a Yara que eu amo profundamente não aparece na Moita, nem me telefona, nem atende mais meus telefonemas. Tou ficando "brabo" e preocupado. rssss

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  3. Seu texto - tão amargo e real, toca o âmago.
    E me remeteu à Louca da casa - da jornalista e escritora espanhola, Rosa Montero:
    “Provavelmente a vida nunca pareça tão efêmera como na melancolia de um amor que termina”... divaga ao determinar o que considera a maior das tristezas.
    Me fez lembrar, tb, as 4 nobres verdades de Buda:
    A vida envolve sofrimento;
    Que é causado, não acontece por acaso;
    Podemos descobrir a causa e estancá-la;
    Devemos praticar pra alcançar a tão sonhada paz interior e romper nossos sofrimentos.
    Para Zaratustra “alguns não conseguem afrouxar suas próprias cadeias, não obstante consigam libertar seus amigos”.
    O estóico Sêneca sugere que valorizemos o que temos de melhor; enquanto Leon Tolstói acredita no destino humano, na fatalidade.
    Em O Príncipe, Maquiavel sustenta que “a sina é o árbitro de metade de nossas ações - mas nos deixa o controle dos outros 50%”.
    Já a pioneira do feminismo, a inglesa Mary Wollstonecraft, acredita que “nada contribui tanto para tranqüilizar a mente quanto um propósito estável – um ponto sobre o qual a alma possa fixar o seu olhar intelectual”.
    Nietzsche ironiza a infelicidade: “uns, lutam pra ir para o céu; outros, querem trazer o céu à terra”.
    Stendhal rabiscou no espelho do seu banheiro com o pincel de barbear:
    “Neurose não é desculpa pra infelicidade. Se vencer é impossível, esforçar-se é uma saída honrosa”.
    E cravou a estocada final ao suplicar que “paremos de choramingar como uma árabe e lutemos bravamente pra merecer o que pedimos - a paz interior”.
    Pra mim, Ledura, a Líbia é aqui mesmo.
    Com uma diferença vergonhosa: lá, eles se escaramuçam nas ruas por democracia. Aqui, somos cordeirinhos, vaquinhas de presépio a aceitar cabisbaixos as patifarias que nos enfiam goela abaixo.
    bjão de sua fã nº 1.

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