quarta-feira, 9 de março de 2011

dependência

A mágoa ali, intacta, vinha de tempos atrás, indecisos e imprecisos, mas certamente infantis. A memória não lhe apontava um dia, um contexto, uma razão. Apenas uma frase repetida não sabia quantas vezes: você não precisa de nada. Muito comum um conceito cruel e equivocado nascido na família ganhar espaço na vida de alguém e, de alguma maneira, guiá-lo por anos a fio até ser reduzido a pó. Alguns autores o chamam de mito diretor.

Viver sem precisar de nada equivale a inexistir. Afinal, necessitamos de tudo e de todos. A independência cai bem em discursos e hinos cívicos, mas passa longe do dia a dia das pessoas. Sem exceção. Nem vale a pena listar ações que estão fora de nós: seria ocioso. Diria apenas que começam no aconchego de um colo e de uma roupa quando nascemos, passam pelo aprendizado da vida, e terminam com as providências do enterro ou da cremação.

A sociedade alimenta essa fantasia, muitos creem nela e a colocam como meta sem perceber sua total impossibilidade. Família e sociedade cruzam conceitos em virtude da sua ligação natural, gerando enorme desconforto às pessoas, que não conseguem decodificar o pacote e engolem absurdos. Talvez por isso, trilhamos caminhos tão aflitos, nos afastamos tanto da serenidade, vivemos insatisfeitos e neurotizados. Ideias fortes e repetidas, embora falsas, impedem raciocínio e clareza.

Não precisar do outro seria a onipotência delirante. A solidão insuportável cercada da tristeza por todos os lados. A falta do arroz e do feijão que a gente não plantou. A ausência de dinheiro porque homem não é banco nem Casa da Moeda. A falta do quê consumir porque ninguém produz tudo. A impossibilidade da troca de ideias. Um sorriso sem foco. Um produzir-se sem motivo. Um dançar sozinho. E o pior de tudo: ausência da amizade, do beijo, do abraço, do sexo, do amor.

As crianças deveriam aprender ainda no colo sobre a importância e a necessidade do outro. Aliás, o bebê sente o valor do seio, da saciedade e do prazer que ele proporciona. Mal cresce, porém, desaprende a vida de verdade e se envolve em conceitos que muitas vezes conduzem à deturpação do real, passando a internalizar pequenas e grandes mentiras, muitas delas de pesado custo emocional. Jogá-las fora dá muito trabalho.

A farsa da independência e da autonomia a cem por cento carece de sentido. Precisamos da terra, da água, do sol, da noite, do ar, da pedra, da areia, da floresta, do animal. A vida da gente vai agregando ideias e realizações de pessoas e mais pessoas e nem nos damos conta disso. No lugar de enaltecer o individual, que resvala para o egoismo, devíamos celebrar a dependência, não a patética e neurótica, mas a saudável que nos coloca mais próximos e mais iguais. A dependência que tece a solidariedade.

7 comentários:

  1. Ledinha

    Simplesmente perfeito, tanto no estilo quanto no conteúdo.
    Fiquei maravilhado e já estou lançando sua candidatura à Academia.
    Além de tudo teríamos uma acadêmica jovem pra animar aquela velharada.
    rssss

    1 Cheiro

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Citei o autor do poeminha da Moita, a seu pedido. rss

    Outro cheiro

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  4. Leda, vá escrever bem assim lá em casa! Sonia

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  5. Você é o que se chama de escritora estilosa.

    Escreve lindamente com conteúdo, acertiva e propriedade. Não copia ninguém. Criou um estilo. Pronto acabou-se. rsssss

    1 Cheiro

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  6. Toc, Toc, Toc. Ôh! De casa.

    Tou esperando que você diga: Ôh de fora. rssss

    Cadê não vai escever?

    Eu quero mais. rsss

    1 Cheiro

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