sábado, 26 de março de 2011

reciclagem

Ninguém preparava os olhos para ver o mundo. As pessoas apenas olhavam devagarinho, despreocupadas, e entendiam o que se passava. Esforço zero. Havia espaço para assimilar mudanças sem correria. Mas depois da informatização, da tecnologia invasiva e do processo global que atingiu os costumes, temos agora a vida supersônica, calcada na velocidade, o que está exigindo uma atualização quase diária de valores e procedimentos.
Uma novidade por dia sintetiza os novos tempos, amparados pelas mídias que não dormem. Por isso, agendas cheias, pressa, correria, mais competição, estresse. O olho no olho substituido pela telinha do computador mexe em cada célula do homem. Sem saber para onde vamos, padronizamos comportamentos e desprezamos raciocínios. Obedecemos à uma ordem inquestionável para fazer, fazer, fazer. Ninguém pergunta: para quê tudo isso?
Os valores que acompanharam nosso crescimento chocam-se com a nova realidade e, sem dúvida, geram conflitos. Haja divã. Os sexólogos, por exemplo, garantem que o par tradicional morreu e devemos experimentar o prazer das formas as mais variadas. Pregam também que a ideia da fidelidade é obsoleta, pois incompatível com a natureza humana. O tempo é de sexo com um, com dois, com mais, com todos. E sem culpa.
Mesmo assim, o par não foi aposentado. Apenas veste novos figurinos. E vale procurar alguém utilizando técnicas, através de agências especializadas e sites de relacionamento. O que antes parecia besteira e dava até vergonha, virou caminho. Afinal, podemos agora, com desembaraço, listar as qualidades que queremos no outro e o computador encontrará a teteia da nossa vida de graça ou por um preço razoável. E seremos felizes por algum tempo.
Criamos novas obrigações, como apreciar um bom vinho e espumantes. A comida do chef deixou de ser privilégio da nobreza e dos ricaços e está à disposição da classe média bem ali. Agora nos vestimos seguindo padrões internacionais, naturalmente adaptados ao nosso clima, e perdemos o sagrado direito à cafonice, pois programas e programas de tevê ensinam como devemos nos apresentar. Cabelo e maquiagem seguem a mesma linha. Nossas casas são decoradas e amamos o design. O chique virou necessidade.
Mas também precisamos ser eternamente jovens, cheios de tesão, inteligentes, divertidos e felizes no admirável mundo novo que finalmente chegou, no qual o bronzeado da pele já não é requisito de beleza, como mostram sorridentes e belas branquelas, onde crianças de sete anos pretendem, na idade adulta, virar celebridades, e o Chanel nº 5 deixou de ser roupa de dormir, como informou Marylin, pois sucumbiu sob 800 novos perfumes. Estamos cada vez mais parecidos. Só não envelheceu a observação de Guimarães Rosa: viver é ofício perigoso. É mesmo.

Um comentário:

  1. Cunhada.

    (haverá uma Selva de gente que vai me questionar). rsssssssssssssss

    Meu estoque de elogios findou.
    Não sei mais o que dizer sobre a beleza do seu estilo de escrever tão bem.
    Não vou dar torcicolo no pescoço do raciocínio pra tentar criar novos elogios de admiração.
    Você é uma escritora, uma alma escritora. E o melhor, escolhe os assuntos muito bem.
    Matou a pau, como sempre.

    1 cheiro

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