sexta-feira, 1 de maio de 2009

pesadelo

Há pouco mais de uma semana sofri um acidente emocional. Uma avalanche de pedras sobre o peito. Uma coisa assim que provoca dor, dor e desapontamento, que abala crenças que eu supunha existirem e, percebi, não passavam de éter. Puro éter. Destinadas ao desvanecimento. De repente, uma realidade nova parecia ocupar meu entorno. Me desconheci.
A gente mente muito. Quase todos os dias. Mente em especial para si mesmo. Mas o corpo fica fora do auto-engano. Pena que só. Então, meu corpo reagiu bravamente e me pus a observá-lo. As dores musculares de tensão, robustecidas, engordadas. A postura fazendo força para decair, se curvar. O apetite e as funções digestivas alteradas. Sono difícil. Pela manhã, roupa de cama sinônimo de muvuca, informando a qualidade da noite.
Perdida, sofrida, abandonei o melhor da minha rotina, deixando para lá o exercício físico, garantia de felicidade hormonal, serotonina. Para complicar, fiquei dois dias sem o carro à mão, o que facilitou uma quebra parcial de contato com o mundo lá fora e, em decorrência, acabei com mais tempo ainda para os nós mentais. E sei que a mente não tem solução pra eles. Percebi isso há algum tempo. Se tivesse, a insônia não perseguiria milhões e milhões de pessoas.
Aquele negócio de pegar um livro e viajar nele, impossível. Sufocada por emoções que maltratam, não se encontra espaço para fruir. A capacidade de contemplação e aquele mundo com jeito de boi alimentado e sereno somem. Qualquer coisa em nós leva à paralisação, ao encolhimento. É como se a não-vida tomasse conta. Desse as ordens autoritariamente. E a pessoa ali, de cabeça baixa, obediente à dor.
Mas alguma coisa bem lá de dentro entra em cena e força a abertura dos olhos. Faz com que uma reação seja empurrada, vá para fora. Então se percebe inicialmente o ar entrando e saindo em movimentos inspiratórios e expiratórios. Um começo de alívio. Respiração é vida e ainda não custa um centavo. A primeira e a última reação do corpo. O nascer e o morrer. A gente volta a olhar ao redor e reconhece a pulsação do mundo. E devagar, cada um no seu ritmo, envolve-se novamente com o dia e a noite. Dores sempre terminam. Tudo é impermanência.

2 comentários:

  1. LEDA,
    acabei de te enviar um email choroso, me queixando da vida. Coisa que quase nunca faço.
    Ao ler esta crônica me pareceu que até foi escrita para mim. Obrigada por esta sinergia que nos une.
    Em tempo: nada é permanente, mas nem insubistituivel.
    Beijão de sua amiga de fé,
    Sonia.

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  2. Ledura, vc retratou fielmente o que sentia e o que todos nós, mortais, tb sentimos pelo menos uma vez na vida. Parabéns pelo texto: sofrido, porém belo.

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