sábado, 23 de maio de 2009

simples e sofisticado

O simples e o sofisticado se cruzam e têm lá suas identidades. Até pouco tempo atrás, eu enxergava a dupla como antagonista. Agora, não, adquiri um novo olhar e a idéia insiste na minha cabeça. Mudanças são sempre bem-vindas, mesmo que envelheçam e percam a validade um dia. E os pensamentos não passam de ondas, puro movimento, entrando e saindo da mente. Liberdade em estado puro.
Antes, eu via a sofisticação como um conjunto de escolhas de um figurino burguês: a moradia, a criadagem, as formas de locomoção, as boas roupas, acessórios e jóias, as maneiras corretas e educadas, as festas belas e bem organizadas, a comida elaborada por quem realmente entende do riscado. Uma coisa assim, digamos, fechada, presa, sem dar passagem para qualquer um.
O simples era pagar pessoalmente as contas no caixa eletrônico, ser motorista dos filhos, enfrentar o supermercado, tomar um café na casa do vizinho, comer frango assado com farofa aos domingos, dormir com o marido cheia de cremes, dentro de uma camisola sofrível e largona, brigar com a empregada, aproveitar a liquidação, não perder o capítulo da novela e muito menos a Hebe Camargo.
Só que as coisas não são o que parecem. Para alguns, como Einstein e os mestres budistas, nem
existem de verdade. Como diziam os hindus antigos, é maya, ou seja, ilusão. Digressões à parte, me parece hoje muito sofisticado desfrutar de tempo livre. E poder escolher a hora de sair para escapar do trânsito pesado. Capacidade de contemplação, um outro luxo. Esse conjunto envolve simplicidade.
Saborear num restaurante de primeira o prato de um chef de verdade não é para qualquer um. Outro dia, porém, tive uma experiência ímpar. Estava na montanha e foram colhidas favas no quintal - aquele feijão que não se encontra à venda com facilidade, chatinho, marfim rajado de verde, grande em relação aos outros, e muito apreciado pelos portugueses. Foi debulhado numa varanda ampla e fresca. Os grãos saiam úmidos e geladinhos. Pulavam na minha mão. Em seguida, foram para o fogão compor o cadápio de um almoço indescritível, com verduras, ervas e legumes do mesmo chão. Existe simplicidade mais sofisticada?
Respirar é tudo e de todos. Democraticamente, ninguém paga por isso. Mas aprender várias respirações da yoga é o bicho. Dá sono, acalma, põe o sistema digestivo para funcionar, acorda o corpo e a mente, diminui os batimentos cardíacos, abaixa a pressão arterial, limpa os pulmões, expele toxinas. Cada tipo de respiração, e são muitíssimas, tem sua finalidade. Olha que sofisticação! Resolver problemas sem médicos e sem efeitos colaterais. E simples, muito simples mesmo.
O simples e o sofisticado se irmanam de vez na criação. Corpos se buscam. Às vezes para gerar. Todo mundo sabe como é. E do ato animal e instintivo mais simples surge o mistério absurdamente sofisticado: o ser. Que chora, se mexe, encanta, mama, dorme, ri, faz xixi. Completinho. Lindo. Vivo.
Somos tão iguais, simples e sofisticados... Mas insistimos em cultivar diferenças.

Um comentário:

  1. Leda,
    Seu Papo Furado está cada vez melhor. É gostoso abrir os favoritos e ler um texto bem escrito, bem humorado e refinado. Aliás, o Papo Furado tem link no blog Poesia no fim do Tunel. Aparece lá! Abreijos, Ana Maria

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