quarta-feira, 10 de junho de 2009

clara

Clara entrou apressada neste mundo, em 25 de maio de 1983. O maior corre-corre. Eu a esperava mais tarde. Chegou magrinha e comprida. Na maternidade, quando alguém chegava, eu dizia com a maior convicção: olha aí a miss Brasil. Pele morena, cabelos e olhos escuros, do jeito que ainda é hoje. Engordou logo porque o leite era tanto que uma ambulância passava diariamente para levar o conteúdo de uma mamadeira cheia. E o pediatra, très gauche, me chamou de vaca premiada. O pior é que eu gostei. Não era chorona nem um pouco, mas anunciava, de três em três horas, religiosamente, que queria comer. Fui desajeitada nos primeiros dias. Aliás, sou. Mas logo a gente pega a manha.
Ter filhos é uma loucura. A vida muda bastante e novos interesses brotam. Gerar, cuidar e acompanhar o crescimento de um ser é tarefa que não comporta adjetivos ou explicações. Só mão-de-obra e amor. Qualquer reação nos toca, qualquer problema nos afeta, os primeiros sorrisos nos derretem. A maternidade, misto de encantamento e responsabilidade, é uma experiência rica demais, talvez a mais rica de todas, em especial para cancerianas, as mães do mundo.
Eu queria ser a melhor mãe do mundo. Não fui. Mas estive presente o tempo todo. E Clara respondeu legal. Falou cedo, se interessou pelo mundo cedo, foi para a escola cedo. E se apaixonou cedo por cachorros. Aos oito anos, assumiu a Naika, pastora alemã. A primeira ninhada, um susto. Ela cavou um enorme buraco ao pé da cerca e ninguém a encontrava. Pensamos que havia evaporado. Como ocorre com frequência, perdeu uns bebês e Clara chorou. Jurava que tinha feito tudo direitinho. Não conseguia entender. Falhara em quê? Mas aprendeu e superou a frustração. Uma outra vez, Naika pegou uma barriga de um viralatas imundo e galante, o Japão, que não perdia um cio na nossa rua. E Clara gritou com ela, bravíssima: "Como você e esse Japão nojento juntos! Vagabunda, vagabunda!"
Outros cachorros vieram. O Zé João fugiu, o Bil Clinton ela deu para a PM, pois era bravo demais e imprevisível. A Gal Costa, uma salsichinha linda que acordava Clara todas as manhãs com lambidas no rosto, e levava um segundo da área de serviço ao quarto da dona, também foi dada. Razão: fazia de banheiro os melhores tapetes da casa. Sem chance de mudar.
Clara sabia tudo sobre cachorros. Tinha vários livros, a coleção da revista Cães e Cia e outras publicações. Era a cachorróloga da família toda. Uma consultora de verdade. Adorava um tal de suplemento para pelagem , que fazia os cachorros brilhantes, e me obrigava a comprar. Rações, as melhores e, quando eu me dava conta, um cobertor de lã parava no canil. Numa viagem a Nova York, lembro bem: entrou no apartamento do hotel, pegou o catálogo no ato e achou o que queria: endereços de pet shopps. Fez a farra. Gastou os 100 dólares para despesas pessoais com presentes caninos. No dia seguinte.
Aos três anos, aprendeu a gostar de histórias e desenho. No seu colégio, Indi Bibia, todo ano havia o Festlivro, o maior incentivo à criação, e dele participavam todos os alunos, com suas obras ilustradas. Convidados bacanas, como Ziraldo e Rute Rocha. Clara ganhou cinco festivais e simplesmente parecia dominar o realismo fantástico, como boa latino-americana. Escrevia sobre o inacrediável com uma graça que me fazia sonhar: vai ser ficcionista.
E o desenho? Tão primoroso que teve dois fãs de peso. Meu amigo Zanini Caldas, que se foi, e exigia que eu comprasse um material especial para Clara na França. E Maurício Azeredo, que se encantou tanto com o traço dela que chegou a fazer uma estante-escrivaninha exclusiva para a artista e a ensinou a soltar a mão sobre o papel. Isso em seu atelier em Pirenópolis, quando deixava para lá um atendimento eventual para curtir o desenho dela. Um deles me pirou: ela fez um casal com seus nove filhos, todos de mãos dadas. A mulher bem barriguda. E escreveu o nome da obra: A família da costureira grávida. E eu torcendo : vai ser artista plástica.
Quando Clara mudou de colégio, aos 10 anos, caiu no tradicional. Mudou porque exigiu, pressionada por um grupo de crianças. No segundo mês de aula, fui chamada para uma conversa. A professora me mostrou uma redação com todos os conceitos trocados mas obedecendo a uma lógica narrativa. Qualquer coisa como o leão miava na superquadra azul quando o sol deu um soco na lua e se enterrou em seguida no meio do cerrado. A moça me perguntou sobre a vida da minha filha, seus sonhos, seus problemas psicológicos. Me deu a maior preguiça e me saí com ela é assim mesmo. Não adiantaria uma explicação porque mente fechada é doença incurável. E Clara, a louca domada, passou a escrever, digamos, normal. Foi educada. Credo!
Mas vamos dar um salto. Clara hoje é uma mulher casada com um rapaz adorável, o Gabriel, fez dois cursos superiores e uma pós, e ingressou no serviço público. Cria sete cachorros, mora numa casa linda no Lago Norte, projeto do superarquiteto Sergio Parada, e pensa em ter filhos proximamente. A inteligência dela salta, a sensibilidade também, o que ainda me dá esperança de que volte um dia ao desenho e à literatura. E antes que eu me esqueça: não me enganei na maternidade, ela é verdadeiramente bela, do tipo que chama a atenção na Oropa, França e Bahia. E o melhor de tudo: a gente se ama. Incansavelmente.

3 comentários:

  1. Maravilhosa a visão de sua cria. Como a conheço desde magricela, vc chorava porque ela não queria comer, dá gosto vê-la agora tão esfusiante, tão linda com aquele cabelão e aquele corpão...A boa pessoa em que se transformou deve-se à sua criação e ao seu amor. Parabéns, Ledura, por tanta perfeição.

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  2. Clara é especial, nasceu virada pra Lua e pode tudo. Podes crer.
    Sonia

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  3. Vi Clara poucas vezes e em todas a achei linda...

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