segunda-feira, 8 de junho de 2009

Frio x calor

Viver num país solar e com sangue africano espalhado de norte a sul induz, no mínimo, a gostar do calor, de aquecer a pele ao ar livre, do som do mar e suas águas misteriosas. Ajuda a gostar de menos roupa, do corpo dançando, da bebida gelada, das janelas abertas. Se não há motivos para apertar os próprios braços para ajudar a espantar o frio, o abraço no outro é mais fácil, o riso é mais fácil, a festa é mais fácil. O clima quente me parece mais comunicativo e informal, menos severo e carrancudo do que os outros, e muito aberto às práticas do amor. E sua flora? Linda e diversificadíssima, mil flores, riqueza pura. Cenário.
Mas agora estamos em junho e, aqui em Brasília, um friozinho chegou. Nada assombroso. Mas faz parte de qualquer conversa. Hoje esfriou, bati o queixo, dormi ontem com dois cobertores, ganhei uma meia de lã com bolinhas de silicone na parte de baixo. Já reparou como leva jeito de novidade? Mas como diz uma das minhas amigas, sabiamente, para o frio tem jeito: é só a gente ir vestindo, vestindo, até dizer agora tá legal. Exatamente o contrário de um calor sufocante e a céu aberto bem no centro de uma cidade grande. Ou mesmo pequenininha. É sem saída.
O confronto frio x calor me chama a atenção num aspecto: jovens não gostam de baixas temperaturas. Até me lembrei do sonho de consumo da minha adolescência: fazer um cruzeiro de um ano com a mala abarrotada de biquinis. Tinha até nome, Em Busca do Sol, e um itinerário atento: a embarcação navegaria apenas no calor. Tempo mudado, percurso novo. Eu nem atinava com o outono e a primavera. Fantasia é tudo. E olha que eu curti aquele super iate. Branquinho, lindo mesmo.
Bem, a gente cresce e, dentre outras coisas, cria. Com minha filha adolescente e a casa cheia das amigas dela, me revi. Ninguém queria saber de frio. Mais: brigavam com o tempo. 13, 14 graus, lá iam elas com seus decotes e pernas de fora. Nenhuma se amarrava numa écharpe, num casacão. Em botas, sim. Inevitável, aliás, por sugerirem sexualidade, erotismo, aquelas moças dançando em boates em torno de um pau (desculpe), seminuas mas calçadas até a vizinhança dos joelhos. Couro preto. Mesmo desconhecendo a cena ao vivo, de alguma forma fica subentendido que bota é sexy, arquetípica mesmo.
Mas se a gente sai de casa e olha a rua, não muda muita coisa: aparece uma moça de short. Numa festa, o tomara-que caia não é substituído. Já ouvi de moças que não existe figurino de inverno para grandes celebrações e o frio que se dane. Até me veio à lembrança um casamento numa noite gelada, uns seis anos atrás, e a atração principal da noite, colo e braços de fora, linda, explicando:" noiva não tem frio". Vai ver, emoção demais esquenta. Qualquer desconforto é melhor do que um vestido de tecido grosso e de mangas compridas. E só se salvam as que podem eventualmente jogar nos ombros o paletó do namorado.
Talvez seja necessário amadurecer para aproveitar o dia e a noite frios. Para dizer sim à natureza, obedecendo aos seus ciclos, e se sentir bonita encapotada. Para perceber que o inverno tem um quê bem mais elegante, segura a maquiagem e o perfume, e até deixa a pele mais bonita. Para valorizar o abraço bom que também esquenta e é mais bem-vindo do que nunca. Para beber devagarinho o vinho tinto e brincar, a dois, naturalmente, de botar para fora aquele vaporzinho que a boca só expele quando o frio perde as estribeiras.

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