quinta-feira, 18 de junho de 2009

galeno

Tem sangue novo na pintura que integra a arquitetura de Brasília e só pode ser do tipo O, pois sua arte leva jeito de universal: é de Francisco Galeno, que está concluindo a pintura da igrejinha, suas primeiras tintas em uma obra pública. Foi escolhido pelo Iphan e se sentiu lisonjeado e feliz, embora reconheça que jogaram sobre ele uma enorme responsabilidade. Nem a polêmica em torno do trabalho, que esgarça a igrejinha, o incomoda: "Eu não me estresso. O estresse é deles", afirma em referência a um grupo de fiéis que estranhou a pintura simbólica, e não clássica, no templo construído a pedido de Sarah Kubitschek, e reage com uma ira pouco velada.
No meio de um furacão, Galeno pensa em outras coisas. Ainda menino, ia para a igrejinha vender jornais e engraxar sapatos. Adolescente, passava sempre por ela quando ia para aulas de música e teatro e nem pensava em artes plásticas. Conta que o trajeto de menino é vivo na lembrança e cheio de afeto. E desde sempre se encantou com a arquitetura dela. Se você imaginou um Galeno simplório e acanhado, se enganou, meu bem. Ele é um homem articulado, consciente, e conhece seu lugar neste mundo. E não dá para ignorar o sorriso fácil e branco, o porte bonito, e um corpão que pouco se vê em homens de 53 anos.
O trabalho na igrejinha caiu do céu. Galeno não teve qualquer contato com Oscar Niemeyer ou outros arquitetos dos velhos tempos da epopéia brasileira. Aliás, do grupo todo só conheceu de perto Athos Bulcão. Eram amigos e havia uma tela sua na casa do mestre. Mais: o senhor dos azulejos frequentava a casa de Galeno em Brazlândia e comia com muito gosto um galo à moda do Piauí, estado de origem do pintor, preparado pela mãe dele. Ambos se entendiam às mil maravilhas e cultivavam trocas.
Galeno agora se dá conta de que a igrejinha virou marketing para ele. Nem precisava, pois obras suas, nas gestões de Fernando Henrique Cardoso, foram presentes do governo brasileiro a chefes de Estado estrangeiros. Sem falar que a crítica e a mídia o frequentam e galerias o disputam. Só que agora foi demais em razão da polêmica e o chororô das beatas. Mas a questão está restrita"à aldeia", acredita o artista, que não imagina pessoas fora de Brasília se interessando pelo assunto. Será?Ele prefere enfatizar que seus pés continuam firmes na periferia e sua arte, na cultura popular contemporânea. Garante que ele e seus próximos possuem uma visão do mundo e, ao contrário do que muita gente pensa, estão antenados.
Diz que não imaginava a projeção pessoal mas tinha uma crença: um dia aconteceria algo diferente . Já aconteceu e é a igrejinha. Por isso, quando cobrem com um pano branco sua Nossa Senhora de Fátima, linda com o manto cheio de carreteizinhos coloridos, ou quando passam o dedo na tinta fresca fabricando borrões, não se exalta. Diz apenas que gostaria de uma discussão mais elevada. E que os fiéis entendessem que não busca o profano, mas o simbólico, que de fato combina com a arquitetura moderna e constitui seu universo de artista.
Mas em dado momento transpira emoção. Lembra que o pai parou em Brasília para trabalhar como servente de pedreiro durante a época da construção. Hoje é marceneiro e dá suporte ao ofício do artista: "Outro dia, conversando com ele, falei que ajudou a erguer a cidade e agora eu coloco minha arte dentro dela. Estamos os dois integrados à história de Brasília. Somos parte dela".

6 comentários:

  1. Faz tempo que eu simplesmente amo a arte do Galeno...

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  2. Uêba! Demorou mas veio com a verve. Parece entrevista de jornalista prima-linea. Valeu! Compartilho, partilho e reparto. Até a igreja tem de evoluir!

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  3. Beleza pura, Ledura maravilha!!! Galeno deve estar adorando. Distribuirei hj aos familiares na missa de 5°ano de morte de minha mãe. Seu blog vai ficar ainda mais famoso. bjs

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  4. pow, gostei muito da forma como vc, falou de td q esta acontecendo, vou mostrar pro meu pai, tenho certeza de q ele vai gostar, abraços.

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  5. Leda, falar de arte é uma coisa que você faz muitissimo bem.
    Lembra quando eu te pedi para me definir arte? Só então tive uma perspectiva melhor nesse campo. Parabens.
    sonia

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  6. Leda,muito bom!!! fico muito feliz com todos os manifestos que defendem a cultura, e esse seu texto é primoroso...no entanto sempre teremos contrários, que neste caso só vai enriquecer ainda mais a arte do Galeno...
    Beijos e parabéns pela colaboração a nossa urbes..
    Sérgio Parada

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