quinta-feira, 22 de outubro de 2009

desejos

Mergulho nos meus desejos e a imagem recolhida lembra o fundo do mar, pela riqueza, diversidade, colorido. Mistério também pelas mil e uma lendas, força e mansidão aparente. Eu, você e todos nós somos seres de desejos, não obstante a posse disso e daquilo, a falta disso e daquilo, e enquanto pulsarmos neste mundo seguiremos a trilha que pode se confundir com sonho e fantasia mas, trocando em miúdos, talvez seja apenas desejo. Eternamente poderoso.
Há desejos universais, como dinheiro e amor, que talvez deixem parcialmente de fora aqueles monges orientais que surgem muito na tevê, sorridentes, calmos, com seus panos laranjas em volta do corpo. Tudo indica que deixaram para trás ou jamais focaram a fortuna. Mas se observarmos melhor, apenas efetuaram uma troca em favor do tesouro espiritual, provavelmente ainda mais valioso para eles. Portanto, têm lá o seu baú. Aparentemente, não abriram mão do amor, apenas optaram pelos deuses e pelo próximo.
Há os que focam a moeda como princípio e fim de tudo e os que demonstram menor apego a ela. Mas não conheço pessoa nenhuma alheia à questão. Atingiria o desumano. Ou a loucura, óbvia naqueles que rasgam dinheiro, como bem diz a voz popular. Na riqueza atinge-se um terceiro desejo de monta, o poder e, através do amor, uma realização pessoal cantada na poesia, na canção, no romance, enfim, em todo e qualquer cantinho onde a arte se aninha e a exceção é sempre zero.
Mas não ficamos aí, queremos muito mais. Nós e nossos olhos gulosos. Nós e nossa imaginação às vezes delirante. A publicidade conhece isso muito bem e nos empurra para o ter. Consumistas ou não, sempre compramos. Outro motor do desejo é o ego, um mestre em confundir aquisição com felicidade e imagem. Esse par desconhecedor de divórcio mostra-se capaz de conduzir muita gente e com tanta habilidade que ninguém se sente conduzido por ele. Com certeza sabe plantar desejos que crescem como árvores. Pudera, vêm ao encontro de nós mesmos.
Seria até simples se a lógica fosse querer, ter e ponto final. O problema é que o desejo, uma vez realizado, desloca-se e abre espaço para o próximo. Roda viva mesmo. A conquista simplesmente o desvaloriza, como o carro que perde o cheiro de novo, tão característico e apreciado. Dizem que os desejos mais rapidamente saciados não nos fazem lá muito bem. Como? Ora, o desejo por um corpo que se encontra longe vive mais, anos até. Mas se a questão se resolve em poucas horas, o valor se vai e às vezes nem volta. Dizem também que a pessoa gorda tem sempre dois desejos: emagrecer e comer. Como este último é mais rápido de realizar, prejudica o primeiro.
Chama minha atenção a circunstância de sempre observar em casas lotéricas a presença de velhos. Principalmente homens. Para mim, prova cabal de que continuam acumulando desejos. Muitos olham para eles e não conseguem imaginar o tanto que ainda querem. Nas famílias, aliás, há tendência para negar tais necessidades e crer que casa, comida e remédios resolvem tudo. Além de uma visitinha, é claro. Por extensão, a sociedade pensa a mesma coisa e assim todos se enganam com eles.
Bebês, crianças, jovens, adultos, maduros e velhos. Todos com sua lista vistosa, com ou sem capacidade de satisfação. Sempre mirando a próxima atração. Sempre insatisfeitos, procurando alguma coisa de lanterna na mão. Sempre atrás de mais e mais, como os políticos experientes no roubo que sonham com rombos cada vez maiores e, coitados, não conseguem parar. Como os viciados em drogas.
E qual seria, nesse emaranhado, o maior desejo de todos nós? Passo a resposta ao psicanalista Ivan Capelatto: "O maior desejo do homem é ser desejado". Eta fonte de angústia! Chama rapidinho o doutor Freud, por favor.

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