quarta-feira, 21 de outubro de 2009

juberlandia

Entrei numa perfumaria para algumas compras e fui atendida por uma moça bonita, desenvolta e simpática. Com quatro produtos na cestinha plástica e a conta beirando duzentos reais, a comerciária mostrou felicidade, pois certamente recebe comissão e, ao me levar até a saída, me entregou um cartão da loja, solicitando que a procurasse na vez seguinte. Com letra de professora, escreveu seu nome na parte superior: Juberlandia.
Juro que sofri um impacto mas me segurei. Nos despedimos aos sorrisos e eu saí andando com o nome dela na cabeça. Quando entrei em casa, coloquei o cartão sobre o aparador da sala de jantar. De vez em quando olhava para ele e pensava na lata de lixo. Mas não consegui me desfazer do pedacinho de cartolina rosa, que passou subitamente a ter significado para mim, diria valor mesmo. Horas mais tarde constatava que Juberlandia estava na minha vida para sempre, com seus olhos verdes e alegres.
Ela me deu seu nome com absoluta tranquilidade, como se chamasse Julia, Julieta, Jussara, Juana, Juliana, Judite. Poderia ser até Juvência, não obstante o cheiro antigo. Mas Juberlandia! Resolvi excluir o município mineiro do imbroglio porque gosto dele e cheguei a ver a Elza Soares cantando lá, assanhada como sempre. Não, a cidade não tinha nada com isso e muito menos Minas Gerais. E joguei o problema na família: o que teria havido com os pais dela ? Pensei em promessa. Mas como sacrificar um ser humano desse jeito? Imaginei o pai dela no cartório tirando a certidão de nascimento e o susto que pregou lá dentro, enquanto Juberlândia, com 50 centímetros e pouco mais de três quilos, mamava na mãe comparsa daquele sujeito sem piedade. Pensei mais: naturalmente tinha uma irmã, a Juberaba.
Passei o resto do dia às voltas com Juberlandia. Cheguei a contar o nome dela para duas pessoas . Eu a vi menina na escola e, quando algum garoto cismava com ela, não se socorria de palavrão, apenas gritava seu nome separando bem as sílabas. Ofensa mortal. Levei-a à adolescência e observei um rapaz lhe dizendo que não conseguiria ser namorado dela por conta daquele bendito nome. Continuei fazendo a vida por ela e ouvi o padre perguntando se Juberlandia aceitaria o moço ali ao lado como marido, na saúde e na doença. E aquele nome bárbaro ecoando na igreja e causando, até para os íntimos, estranhamento vinte e cinco anos depois. Tive uma crise de compaixão.
Não ignoro que muitas são as dificuldades da jornada de cada um. Nem quero dar exemplos trágicos como acidentes feios, doenças, falência, perda de pessoas queridas, violência. Desço alguns tons e fico com a mudança na dieta, a disciplina para a prática de exercícios físicos, a manutenção do humor para trafegar e encontrar uma vaga na cidade grande, a história interminável e sem interesse que a gente tem de ouvir, o emprego perdido. Encontrar a ex no restaurante, um mês depois do fim, linda, elegante, serelepe e bem acompanhada também é difícil, e viver sem amor, mais ainda.
Acontece que essas são situações provisórias que a vida trata de refazer e um tempo depois a gente até esquece. Com o nome, não, somos submetidos a ele. Que por sinal não desgruda e se aninha em todos os documentos, cartões, carteiras, e se faz presente em toda e qualquer situação, com seu peso de identidade. Mais, ouvimos diariamente aquele som: Juberlandia, vem cá. Oi, Juberlandia, tudo bem? E aí, Juberlandia, vamos hoje à noite lá no barzinho? De tão brabo o tal do nome que a lei permite a troca, dimensionando o problema.
Felizes os donos de nomes normais, nomes que entram e saem de moda e não causam desconforto nenhum, nomes que nunca entraram na moda, nomes compostos, nomes fortes, nomes delicados, nomes de sonoridade boa. Viva a Maria, o João, a Luciana. Viva todo aquele cujo nome combina com o vocabulário do amor. Viva quem pode ser apresentada assim, sem qualquer constrangimento: Pai, essa é a Suzana, minha namorada.
Se eu fosse a Juberlandia, arranjava outro nome. Bonito de doer.

3 comentários:

  1. Oi Leda!
    Tenho recomendado o teu blog no meu twitter
    http://twitter.com/clarafavilla D~e uma olhada lá.
    Olha, eu tive um aluno, quando dava aulas em Brazlândia (DF) que se chamava Vaginaldo.
    Até que Juberlandia não tá tão ruim assim.
    Beijos

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  2. Ledinha linda, voce me abandonou e me deixou a ver navios no Lago Norte.
    Adoro você e já gosto até da Juberlandia. E da Clarinha, claro , que reencontrei no twitter e amei.
    beijos
    graça seligman

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  3. Leda, vc é demais!
    Faz de qualquer fato um tema interessante, e ilariante.
    Mas também conheci pessoas comn nomes estranhos:
    Na Faculdade de letras tive um colega japones que se chamava Kuki Mitja. Sacou? Um fenomeno fisiológico.
    Fora um senhor de Tatui, chamado Ultimo Prazer do Rego. E o apelido dele era Zé Vemelho, devia ser de vergonha do nome.
    Beijos,
    Sonia

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