sábado, 17 de outubro de 2009

xô!

Ao contrário dos homens, mulheres costumam entrar em banheiros de restaurantes e grandes festas geralmente em dupla. E entre o retoque do batom e uma puxadinha no cabelo, trocam impressões, desejos, confidências. Tudo rápido. Se essas conversinhas fossem gravadas e depois selecionadas, dariam uma ideia do que elas pensam sobre a sexualidade. Nos banheiros, o assunto principal é homem. Faz tempo que é assim.
Quando reunidas em pequenos grupos e sem preocupação com o relógio, passam por vários temas e, invariavelmente, o homem também entra na roda. É, mulheres contam a vida para as outras, suas frustrações, mancadas, ousadias, traições, mágoas, desconfianças e até seus gols de letra. São chegadas a referências sobre tudo e todos, dão as fichas mais íntimas e se divertem juntas com o troca-troca. Dizem até que mulheres sofrem menos ataques cardíacos porque liberam suas emoções com as amigas.
Pois dia desses participei de uma pequena reunião feminina, cinco mulheres para ser exata, e depois que uma delas tirou os sapatos e enroscou as pernas no sofá, um ar de intimidade varreu a sala onde estávamos. De repente, falando ao mesmo tempo e produzindo aquele som agudo- metálico pontuado com risadinhas, o que também é tipicamente feminino, foi construida uma espécie de lista negra sobre tipos masculinos que deveriam ser evitados sempre, independente do mercado que não anda lá muito farto.
O primeiro banido foi o homem excessivamente formal. É verdade: ele existe. Da roupa ao olhar, com ênfase no discurso, tudo nele cheira a solenidade. Como nada parece natural na sua companhia, não dá para construir alguma coisa próxima. Faltam o riso solto, a espontaneidade, um porre, a brincadeira maliciosa, o palavrão na hora certa. Falta até suor porque o tipo não transpira de jeito nenhum. E noites se transformam em tédio, perda de tempo, uma tristeza só. Uma das minhas amigas até comentou que, perto dele, o chanceler Celso Amorim parece cantor de funk.
O segundo execrado foi praticamente o oposto do primeiro: aquele que, em cinco minutos, demonstra desenvoltura misturada com inadequação e parece até que te conhece desde menininha. Não tem a menor classe. Vai soltando suas vontades disso e daquilo com a mulher, sem cenário ou ensaio, e a coitada, por não ser surda, ouve aquele monte de baboseira e nem sempre pode sair correndo. É sem noção o sujeito. E ainda por cima se acha muito engraçado e interessante. Felizmente não existem aos montes por aí, mas sempre se pode tropeçar em algum. Um negócio de azar mesmo.
O homem cheio de problemas para quem a vida pouco sorri é mala das mais pesadas. Escurece qualquer ambiente. A conversa com ele gira em torno de filosofia barata na reunião mais animada. Ele e seus temas sérios. Aliás, não descuida com o demônio da alegria para evitar a possibilidade de desafinação. Parece gostar do denso, do intenso, do complicado. Conheceu e ficou na discussão existencial sem saída. Na sua opinião, o mundo é mau e ponto, esse mundo apinhado de pessoas ocas e insensíveis, prontas para o deslize e o caminho fácil . Tudo nesse homem de preto tem cheiro de ausência de prazer.
Um quarto tipo foi o merecedor da maior animação no pequeno grupo feminino. O coro de risos aumentou e realmente saimos do sério: falamos do homem respeitador. Questionamos se era um espécime típico de trovador medieval que sobreviveu Deus sabe como e está no mundo apenas para desapontar as mulheres. Nada concluimos. Foi tão xingado que deu pena. Uma mulher contou uma história esquisita: topou com o tipo e ouviu a palavra vagina. Assustou-se. Logo ela, que nem sabia o que isso queria dizer.
O respeitador costuma ser solícito, educado, risonho, tímido, medroso, inexperiente. E chato, chatíssimo, embora potente. Se pega a mão da gente, a mão parece que vai cair. Se dança com a gente, não dá uma encostadinha. Na cama, zero de sacanagem falada. Ele parece acreditar que o interior feminino é muito frágil e, quando consegue um dia chegar lá, entra e sai bem devagarinho para não fazer dodoi. Quando tira a roupa, coloca tudo dobradinho numa cadeira do quarto e só deita depois. E o roteiro é familiar, apenas papai e mamãe. Uma das presentes relatou o seguinte: dez minutos depois de um sobe e desce semelhante a um elevador calmo e sem som, ouviu de um deles: "Acabou". Ela não resistiu e balbuciou:"Deus existe".


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