terça-feira, 6 de outubro de 2009

planos

Deu no jornal: em 1991, o então trialeta Leandro Macedo, que disputava o ironman, engendrou um plano mirabolante de viver pelo menos até os 120 anos muitíssimo bem e, desde então, segue uma rotina toda focada no objetivo. De alguma maneira, o brasiliense de 41 anos resolveu refazer um percurso que há séculos e séculos era privativo da figura mitológica do herói que colecionava façanhas e, mais recentemente, dos poderosíssimos das histórias em quadrinhos e até da literatura e do cinema, a exemplo do super agente britânico James Bond.
O Leandro de verdade, em carne e osso, dividiu a vida em três fases, e deu exatos 40 anos para cada uma. Começou a segunda há pouco mais de um ano, e nela atua como professor e empresário ligado ao esporte. Aos 80, pretende aprimorar a vida espiritual que já leva hoje, viajar para a Índia e o Tibete, e aumentar o tempo dedicado à meditação. Ele não usa forno de microondas, vê o telefone celular como inimigo, embora não possa jogá-lo no lixo em virtude da atividade empresarial, preocupa-se com a ingesta de água e com a alimentação, e faz controle do estresse.
Com certeza, neste mundo tão grande existem outros Leandros, outros superman que se sentem capazes de vencer as barreiras do tempo com vigor e agilidade e não apenas sonham, mas contam para nós seus planos. Mas se envolver com meta tão grandiosa e, de alguma forma, viver para ela, já me sugere uma sensação de fadiga. Uma dor de barriga ou uma gripe leve talvez sejam um transtorno e tanto para quem não tira os olhos de um pódio e que disputa com si mesmo o grande prêmio.
Joseph Campbell, o maior estudioso da mitologia no século vinte, professor e escritor de prestígio, alertou certa fez que nenhum de nós deveria encarnar o herói porque este já existia dentro de cada um e em algum lugar da mente. Como um deus, cumprira, por nós, metas fabulosas. Assim, entregá-lo ao mundo como mais um humano não parece uma atitude sensata. Sugere, sim, uma fantasia perturbadora.
Desafiar o tempo sem perder a pose com músculos no lugar, ossos fortes e prontos para um tombo sem consequências, cabeça clara como manhã de sol, flexibilidade de acrobata de circo, coração e pulmões tinindo, sistema digestivo em ordem, estresse sob controle, energia disponível e afetivamente em paz. É coisa demais para um homem velho. A medicina vem esticando a vida das pessoas mas cobra seu preço: doenças vão embora mas os efeitos colaterais trazem novidades não necessariamente boas.
As recomendações que chegam a todos os ouvidos e falam em comida saudável, exercício físico, dois litros diários de água, controle de estresse e prevenção naturalmente só podem fazer bem mas não garantem grande coisa. E pessoas que seguem as regras não exibem de nenhuma autoridade em saúde um atestado de longevidade e qualidade de vida garantidas. Até porque hoje já é sabido que a mente e seus problemas criam distúrbios no corpo. Por isso as pessoas ouvem muito uma frase nos consultórios médicos que começa assim: "Você fez um..." E aí serve qualquer doença - uma úlcera, uma artrite, um resfriado.
A vida envolve tanto mistério que me parece prudente vivê-la o mais simplesmente possível, em especial sem muitas apostas no futuro. Se olharmos bem, o futuro nem existe, salvo na forma de expectativas. Se forem grandiosas, o risco da frustração é enorme. Mesmo assim, o homem quer desvendá-lo, quer saber como será o amanhã, e se prepara às vezes com sacrifício e rigor para o dia abstrato que é apenas um número no calendário. Quem sai perdendo é o presente, o único tempo disponível para viver a vida. Mas parece difícil para todos nós solucionar a equação do tempo.

Um comentário:

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