Você encontra um conhecido e, conversa vai, conversa vem, ouve que o Natal chegou. Querendo ou não, interessado ou não, com ou sem lista de presentes para comprar, não se consegue escapar do assunto. Ruas, avenidas, praças, superquadras, shoppings enfeitados. Nem o susto dos últimos apagões desliga os enfeites coloridos e seu pisca pisca que agrada não só as crianças. Difícil alguém não gostar das luzes alegres dessa época.
O que mais me espanta não é o assunto das conversas, mas constatar como o tempo está
correndo com tanta vitalidade, tanta garra. Já é Natal mas não estamos na penúltima semana do ano. Muito esquisita a sensação de que as horas, os dias e os meses correm como maratonistas na cara da gente e sem dar a menor bola. Daí o quase espanto quando alguém se dá conta: Ih! O Natal chegou.
Já construiram uma teoria sobre a aceleração do tempo, a ressonância Schumann, segundo a qual o homem e o universo pulsavam na mesma frequência. No entanto, teria surgido um descompassado entre ambas as partes, constatável por acidentes naturais e comportamentos repreensíveis, em virtude da mudança dessa frequência, provocando o encurtamento dos dias. Pode ser, embora meus relógios continuem a marcar como antes os segundos, minutos, horas. Mas que o tempo voa, voa.
Na época do fogão de lenha, do ferro à brasa, da água tirada do poço, da comida 100 por cento artesanal, da caneta tinteiro, do escovão, da carroça, do bonde, da lamparina e outras relíquias, o tempo se arrastava. Com o advento do conjunto de geringonças para garantir praticidade, facilidade e rapidez em tudo na vida, surgiu a inversão: no lugar de mais tempo, entrou em campo a falta de tempo. Agora, o mundo todo vive correndo mas reclama por não conseguir dar conta dos seus afazeres. Uma faceta da modernidade.
Será que temos à mão alguma coisa para colocar o tempo nos eixos e impedir que nos puxe pelos cabelos ? Ou será que a tal da ressonância Schumann, polêmica à parte, é pra valer? Seria bom se reconquistásssemos o espaço para a contemplação, para o lazer, para sentir nosso mundo e olhar as pessoas, para plantar um pé de qualquer coisa, para perder a neurose com o relógio, para observar a própria respiração.
Hoje, pelo que constatei, o tempo só perde o fôlego em poucas situações. Uma delas não vale a pena mas é batata: a criatura foi medicada e precisa tomar um remédio de oito em oito horas. Antes de engolir a drágea, tem de comer alguma coisa. De barriga vazia não vale. A pequena escravidão, de sete, dez ou quinze dias, sempre parece longa. A caixa do remédio custa a esvaziar, o horário de comer e dormir e acordar é alterado. Chutada a rotina, dias maiores.
A segunda situação é a viagem. Quando saímos, o novo nos assalta. Paisagem, clima, roteiro, meio de transporte, comida, ruas, pessoas, vitrines. Tudo provisoriamente diferente do dia a dia. Claro que muitas vezes revisitamos um lugar. Mas isso não importa porque os olhos sempre divisam alguma diferença. No terceiro, quarto dia de viagem, é normal a sensação de estarmos longe de casa há tempos e os dias são longos e preguiçosos, indispostos para a correria.
Claro que devem existir muitas outras situações que seguram o ritmo do tempo, como a chegada do namorado daqui a 10 dias ou o primeiro fim de semana depois de uma separação. O tempo da expectativa e da perda são longos. Da doença, também. Mas agora me vem uma certeza : nada acelera mais o tempo do que a mesmice e o olhar sem surpresa para a vida. O tudo igual. Ou quase.

Será que a ressonância Schumann não funciona exatamente assim: como todo mundo está apressado, o universo corre atrás.
ResponderExcluirÉ.... a sensação é de que o tempo corre mesmo!
ResponderExcluirDaí a importância de estarmos presentes no que fazemos, no agora. É uma maneira de "segurar "o tempo e de aproveitá-lo.
Este presente tem que ser bem saboreado!
Leda, adorei o final de sua conica. Ma mesmice consome a gente por dentro.
ResponderExcluirMais uma poesia que fiz, para o tempo, e para seu senhor absoluto, o planeta Saturno.
Mágico Artista.
O Tempo
é mágico artista.
Pintor, muda as cores.
Escultor,
transforma os corpos.
Arquiteto,
cria novas formas.
Engenheiro,
concretiza tudo,
sólido ou líquuido.
E não deixa de ser homem
quando num sopro de vento
ele fecunda as rosas.
Dá pra ser romântica enquanto o tempo passa, anmiga!
Beijocas, Sonia Novaes