Seja bem-vindo mas limpe os pés.
A saudação precavida, pintada na madeira e sugerindo um quadro, era pendurada na porta principal das casas brasileiras até meados do século XX. De tão comum, não havia visitante que vestisse a carapuça e se sentisse ofendido. Por via das dúvidas, no entanto, esfregava os sapatos no capacho. Mas sempre que entrava na residência, ninguém lhe pedia para mostrar as solas devidamente limpas. Era tácito.
Ouvi esse pedacinho da história nacional outro dia, me vieram curiosidades em fila, mas a pessoa que me contou ficou nisso. Quis saber se a ordem tinha a ver com o velho hábito de jogar o esgoto doméstico na rua. Quis saber se a tabuleta era grande, média ou pequena. Se a inscrição era pintada em uma ou várias cores. Se as ruas de antigamente conseguiam ser mais sujas do que as atuais. Se isso era uma espécie de mídia para educar os brasileiros. Nada, não obtive uma só informação complementar e nem vou tentar buscá-la por aí, por mais que eu adore saber sobre coisas bobas e sem aplicação e sem interesse para a maioria das pessoas.
Mas sinceramente adorei agregar o conhecimento, perceber que não tínhamos por aqui a preocupação com o refinamento, que o bom mesmo era a casa limpa com a devida colaboração de quem batia na porta e entrava em seguida. Um tempo, imagino agora, em que os figurinos da Europa e dos Estados Unidos não faziam a cabeça da maioria porque as comunicações andavam de carroça e atingiam pouca gente. Enfim, um Brasil brasileiro, moreno, todo simplicidade.
Na mesma linha, acabei sabendo que era também bastante comum o dono da casa, em noites de jantar com convidados, avisar que todos podiam lavar as mãos porque a comida seria servida em poucos minutos. Não é uma maravilha? Me dá vontade de rir, aliás, estou rindo só de pensar em todos obedecendo, fazendo fila na porta do banheiro, no meio do corredor. Finalizado o ritual, a toalha branca de linho, toda bordada, molhadinha da silva. E todo mundo pronto para partir com as mãos a bisnaga ali no cesto de vime, centro da mesa.
As duas histórias me deram orgulho de ser desta terra. Gosto, gosto muito daqui. Jamais babei
em outras culturas, jamais me senti inferiorizada ao ver e ouvir as delícias do primeiro mundo. Jamais quis viver longe do Atlântico. Hollywood, o maior marketing do pós-guerra, não virou minha cabeça para o padrasto do norte. Não pintei o cabelo de louro e muito menos quis tomar refrigerante de máquina. Sempre amei os sucos da minha terra e homens morenos de coxas grossas.
Mas agora os hábitos são outros, a globalização os atingiu em cheio. Ficamos parecidos com o resto do mundo e perseguimos a sofisticação. E cada classe social tem a sua, ninguém está excluído. O chiquê da classe alta é um; da baixa, outro. É só reparar, os códigos andam todos por aí, no ônibus e nos melhores restaurantes. E ninguém parece preocupado em preservar cultura. Que eu saiba, não pediram ao Oscar Niemeyer um projeto para o Museu do Carnaval. Nem o Espaço da Bossa Nova para o arquiteto Sergio Parada. Seguimos devastando nossas riquezas populares. Mas se alguém entrar na minha casa e limpar os pés, intimamente agradeço.

Conheço um jovem senhor, Leda, que limpa tanto os pés antes de entrar, que a visita que o segue, sente intimamente uma ordem: limpe bem seus sapatos, também !
ResponderExcluirLeda, adorei! Aí vai mais uma historinha desse tipo:
ResponderExcluirTenho uma amiga em São Paulo que montou uma sapataria de pantufas no hall de seu ap. Todo mundo tem que tirar o sapato e calçar um par de pantufas. O bacana é que são enormes para caber em qualquer pé, e lindas! Coloridas,estampadas,e vc pode escolher conforme seu estado de espírito. Mas o chato é que vc não lava os pés para usá-las. E se alguem tiver uma pereba? Não pega na minha amiga, pois ela naõ as usa. Mas e a gente? Não perguntei se ela lava as pantufas, não tive coragem.Mas lavei meus pés muito bem ao chegar no hotel.QUANDO FOR LÁ DE NOVO VOU LEVAR MINHAS PANTUFAS.
Beijos, sonia