sexta-feira, 19 de março de 2010

entre miragens e delirios

Eu sou Albert Einstein e ninguém ousa questionar o meu QI. Ou então, entro na pele de Sigmund Freud e coloco esse mundo de pernas pro ar porque sei muito bem o que está aí na cabeça de vocês, sei muito bem o lugar da sexualidade na vida do menino e do homem. Troco de lugar com o professor Joseph Campbell e descubro, nos meus estudos sobre mitologia comparada, que o interior das pessoas é o mesmo, sejam elas de uma tribo pequenininha ou da velha Grécia. Da Europa ou da América modernas. Tenho base e segurança para dizer que superioridade é delírio, preconceito.
Escrevi Il Gattopardo, esse tratado de mesquinharia política que une força e delicadeza numa prosa poética: sou a sra. Lampedusa, abram alas para eu passar. E mudei a história das artes plásticas em meio a molecagens e um monte de animais nos meus castelos bagunçados: sou Pablo Picasso, um cara contraditoriamente livre e disciplinado, uma síntese. Dei cursos e mais cursos para o pensador Adauto Novaes e ele aprendeu a perceber o mundo pós-moderno sem qualquer dificuldade. Entreguei a ele porções de lucidez. Na bandeja.
Numa conversa informal com o empresário Bernardo Paz, concluimos que o brasileiro tinha olho gordo no chamado primeiro mundo e se sentia inferiorizado diante de um francês, um norte-americano, um sueco. Macaqueava sem perceber. Foi então que me surgiu a ideia do mais lindo museu do mundo, integrando arte, arquitetura, paisagismo. Que deveria contar também com a mais completa coleção de palmeiras do planeta. Bernardo topou e nasceu o Inhotim, em Brumadinho, ao lado de Belo Horizonte, com o objetivo número um de aumentar a auto-estima do nosso povo sofrido. Essa eu adorei.
Mas não parei por aí não: inventei a roda, a meditação, a internet, um produto para alisar cabelos, a mousse de chocolate. Esta última deu trabalho, pois foi necessário amansar o cacau e fazer com que os outros acreditassem que era naturalmente doce. Criei um negócio simples mas eficiente que batizaram de à milanesa. Posso transformar qualquer um num buda, num ser iluminado. Ah, colaborei na busca de temas para Noel Rosa contar histórias musicais e dei algumas dicas para os arranjos do maestro Tom Jobim.
Faço absoluta questão de que me olhem e me percebam e me respeitem pela minha importância. Não sou uma qualquer. Afinal, vim para o planeta Terra para transformá-lo. Se quiserem tentar me resumir, me chamem pelo nome de luz. Ou Luz, com ele maiúsculo. Por onde passo, todos me reverenciam. A mídia solicita minha opinião sobre tudo e muito mais. Se tivesse tempo, diria alguma coisa. Mas meus livros estão nas melhores livrarias. Então, procurem neles minhas opiniões. Meu tempo é curtíssimo. Durmo muito pouco. E escrevo muito e sempre.
O conjunto de miragens se aproxima alegoricamente das criaturas que se levam muito a sério e de suas atitudes por supuesto consequentes e sempre adequadas. São os importantes de mentirinha, pois não mudaram nada neste mundo e nem criaram algo de valor para muitas pessoas. E vejo o Plano Piloto de Brasília como um lugar ideal para desenvolver esses delírios em virtude da concentração do poder real. Mas penso também que o cultivo dessas frivolidades desemboca na escravidão da auto-imagem, uma fantasia que ocupa tempo demais e perda de energia. Melhor a sorte de ver o gato comer dois terços da própria vaidade, cair no simples e descobrir, na maior alegria, a liberdade ali, na cara.

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