quarta-feira, 24 de março de 2010

a superquadra desperdiçada

Se mestre Lucio Costa tirasse da prancheta um projeto de superquadras para um país nórdico, digamos, a Suécia, creio que o aproveitamento desses quadrados com duzentos e cinquenta metros de lado seria muito diferente. Eu me espanto a cada manhã com o vazio de gente nesses verdadeiros jardins e apenas vejo uns poucos cachorros rolando no verde e alguns moradores de rua fazendo de cama os gramados, geralmente com uma garrafa vazia ao lado. A superquadra, símbolo de uma nova maneira de morar, virou um deserto colorido. E no lugar do trânsito de pessoas, automóveis, caminhões, motos e ônibus escolares circulam por ela.
Imagino o que fariam os quase dois mil suecos em uma delas. A primeira idéia é a de que absorveriam o espaço como um parque moradia e, quando o tempo permitisse, no mínimo pegariam um sol. Talvez se interessassem pela manutenção do jardim. Quem sabe fariam concursos e escolheriam o mais bonito. Pensariam talvez em uma quadra de vôlei , em uma mesa de ping-pong ou destinariam um pedacinho da superquadra para preparar alguma coisa para comer, uma pequena cozinha de lazer.
Nunca pisei na Suécia e nem tive ou tenho amigos de lá. A escolha foi aleatória e provavelmente errada. Afinal, quem foi que disse que esse povo gosta de vida comunitária? Sei tão somente que os habitantes do frio reverenciam o calor do sol e ponto. E que nós, que passamos quase a metade do ano suando e a outra sem tiritar de frio, salvo em alguns poucos lugares e, mesmo assim, por tempo mínimo, nos acostumamos tanto com o tal do astro-rei que nem damos muita bola para ele. Quando chega o verão, aos milhares corremos para a orla marítima: ritual de apenas uma estação.
A função da superquadra no âmbito do Plano Piloto de Brasília não se cumpriu. Foi pensada como um espaço de integração entre moradores, de praticidade para famílias pelas escolas públicas para as crianças, o comércio pertinho, o clube, a igreja. As pessoas circulariam a pé e conheceriam umas as outras. Mas um conjunto de circunstâncias alterou tudo, a começar pela utilização do automóvel. Outro aspecto foi a mudança de comportamento em relação aos vizinhos. No tempo da simplicidade, uns batiam na porta do outro e todos tinham nome; hoje, os que moram ao lado são desconhecidos. A cadeira na porta de casa sobrou para as localidades pobres. Continua lá, como um símbolo.
A correria da vida moderna, que fabrica simultaneamente engenhocas tecnológicas facilitadoras e encargos cada vez mais diversificados, nos diz que o tempo para o outro é o segundo para se dizer bom dia ou boa noite. E só. Em meio à turbulência, que parece encher a vida de todos, ocupando sem parar os horários, fala-se muito em depressão, síndrome do pânico, falta de amor, solidão. O pior é não termos tempo sequer para nós mesmos, para um passeio pelo nosso interior, para usufruir pelo menos de alguns minutos de calma e introspecção. Então, como pensar em algo comunitário?
Por isso, a superquadra alegre, humanizada, cheia de vozes e trocas, é quimera. Nem as crianças brincam mais no escorregador dos pequenos parques. A vibração fica por conta dos recreios das escolas. No resto do tempo, silêncio, quebrado apenas pelos barulhos urbanos de sempre. É uma pena não se usufruir do gramado generoso da superquadra, que envelheceu demais em 50 anos. Se fosse uma mulher, estaria vestida de preto viúva de antigamente, usaria meias finas e aqueles sapatos fechados, com cadarço, e andaria rápido e olhando para baixo e agarrada na bolsa. Poderia ser bem melhor. Afinal, para quê tanta claridade, tanto sol desperdiçado? Ora, para turista fotografar. Ou então virar cartão postal.

Um comentário:

  1. Na verdade a solidão está sempre dentro de cada um de nós.É um dos sinais deste tempo louco e apressado, onde mal sabemos como nos mesmos vamos indo na vida, quem dirá saber como vai o próximo. Mas cá entre nós: Volta pro Lago Norte, este sim ficou vazio sem você, minha AMIGA!
    Sonia Novaes

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