segunda-feira, 29 de março de 2010

bento

Eu não escapo: sempre que encontro Bento num local onde se pára e conversa, como um almoço, uma festa de aniversário, ele me conta histórias da sua vida ligadas a um único tema - intimidade. Ele é um homem maduro, um craque na profissão, muito bem relacionado. Bem, nos vimos neste último fim de semana e, quando saí do gracioso apartamento onde estávamos, trouxe uma cesta de casos novos.
Bento, que naturalmente foi batizado com outro nome, me garantiu que jamais amou alguém e, invariavelmente, trai. Não se casou e nem tem filhos, mas curte horrores seus sobrinhos, uma forma talvez de substituir o desejo da paternidade. Jamais me pareceu um sujeito pesado, com tendências depressivas. Pelo contrário, uma criatura leve, falante, antenada. Diria até alegre. Ou melhor, gay. E sem trejeitos.
O que me surpreende nas suas histórias é a forma masculina de tratar seus parceiros. Ele chega a ser duro e mandão até o caroço. Busquei saber a razão e ele me disse que sua mãe o tratava assim, sempre muito rigorosa e nada de nhém-nhém-nhém. Aliás, chegou a essa origem do próprio comportamento no consultório do terapeuta. Uma forma de adoção do feminino através de um suposto masculino. Achei curioso.
Para Bento, não há pré-requisito para o contato físico, salvo o encontro e o desejo. Desconhece o nome, a profissão, o telefone e o endereço de boa parte dos parceiros, majoritariamente casados, mesmo quando os reencontra. Relatou que o Parque da Cidade é um local muito procurado para contatos rápidos, embora já tenha sido flagrado pela polícia e passado algum aperto. No intuito de me instruir mais sobre sua vida e de muito mais gente, rasgou um pedacinho de papel e me deu o endereço de dois sites: http://www.deolhonamala.com.br/ e http://www.disponível.com.br/. Avisou que este último exige cadastro.
Uma de suas fantasias preferidas é aquela do dominado e do dominador. Mas sem acessórios metálicos e couro preto. Me contou diálogos alucinados e provavelmente excitantes para os participantes, me levando a crer que o estereótipo do machão talvez seja um plus nesses casos. Para Bento, o desconhecimento do outro e a ausência de afeto favorecem a intimidade, em especial porque o futuro não garante nova rodada sexual. É aqui e agora. Até me lembrei de uma frase musical de Construção, do Chico: "Amou daquela vez como se fosse a última." Talvez venha daí tanto esmero, tanto capricho na performance.
Em ocasiões sérias, como encontros profissionais, e por isso mesmo bem distantes do parque, também ocorrem surpresas. E Bento confidenciou que faz testes. Não conta muito, segundo ele, olhar e discurso. Vale mostrar distraidamente uma parte do corpo, esquecendo a porta do banheiro aberta. Se houver um sinal de interesse... Mas às vezes dá zebra, pois tem homem que parte para o tapa e o jeito é correr.
O mundo só é interessante pela diversidade. Mulheres, por exemplo, costumam pensar no depois. Gostam de jogos iniciais levemente recatados. Adiam por um dia o contato principal. Fantasiam o amor para justificar procedimentos. Gastam um tempão e uma grana para se sentirem seguras e arrumadas e bonitas nos primeiros encontros. Esperam um telefonema no dia seguinte. Adoram uma delicadeza. Querem saber o lugar onde pisam. Insistem em prever o amanhã. Querem amar como se fosse a penúltima vez pelo menos. Claro que falo genericamente, pois não constituimos um rebanho educadinho, mesminho, mansinho. Mas vejo um ponto comum entre meu amigo Bento e nós mulheres: corremos e contamos tudo para as amigas no dia seguinte.

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