quarta-feira, 1 de julho de 2009

erica e o gênio

Erica me contou: se o gênio da lâmpada do Aladim surgisse em carne e osso na sua frente, prontíssimo para satisfazer alguns dos seus desejos, não vacilaria e pediria, de joelhos, a graça de ser uma mulher relaxada e senhora de uma calma insuportável para todos aqueles que vivem tremendo, correndo, a voz metálica indicando a turbulência interna. Ficaria nisso, nada mais, o bastante para ser apontada como a mulher zen, mas sem aquela cara de monja. Nada de cabeça careca e roupa bege folgadona, maquiagem zero, sandália franciscana e o coração apenas voltado para as lições do mestre.
Não, o gênio senhor dos desejos faria um trabalho apenas na sua mente e, da noite para o dia, Erica conheceria o prazer da vida sem pressa, de uma noite de sono branca e pesada de no mínimo sete horas , de almoços e jantares com garfadas espaçadas. Não espiaria o relógio tantas vezes e, se dois telefones tocassem ao mesmo tempo, poderia simplesmente não atender nenhum deles. Pensaria muito antes de aceitar compromissos novos. Afinal, pessoas assim se dedicam muito ao seu interior e resistem a abrir mão de um generoso tempo para elas mesmas.
Erica relatou que uma data casada com uma obrigação é motivo de ocupação prévia da sua cabeça, uma espécie de espaço aberto até o momento da realização. Ela quer dar uma fechadinha, deixar conscientemente o problema para a hora certa, desvencilhar-se daquele buraco. Mas falha, quase paralisada. É a velha história de pré-ocupar-se que simplesmente é só preocupação. Reconhece o problema, olha para ele de frente, mas êxito que é bom, nada. Isso só resolvo com o gênio, me disse com ar de desalento.
Outro dia mesmo, convidou amigos para um almoço em casa, lá no Mato Grosso. No lugar de curtir, sofreu com medos difusos. Só conseguia pensar no que deveria ser proibido: vai sair gostoso? Minha casa está agradável? Meus amigos vão apreciar meu gesto? Vai ser divertido? Vou conseguir compatibilizar meu trabalho com esse encontro? E mergulhou numa ansiedade incompatível com a simplicidade da reunião. Pensou até em desmarcá-la. Enfrentou a chuva forte sobre a mente e se sentiu esgotada. Na véspera, só queria mesmo um colo .
Ela me confidenciou que adora a convivência com gente que não esquenta a cabeça e faz mil coisas sem se ligar em perfeição. Gente que cai na cama depois do almoço e cochila, faz programas noturnos durante a semana sem cogitar sobre o dia seguinte no batente, perde as chaves, não dá a menor bola se atrasar um pouco, muda de roteiro numa boa, vive solta e sem as dores de tensão nas costas e no pescoço (tão íntimas dela), encontra tempo para tudo e ainda pega firme na vida no lugar de vê-la passar. Quanto mais dá tratos à bola, mais distante se sente do modelo sonhado.
Quem vê a Erica conversando e percebe a facilidade dela para sorrir, quem vê a Erica contando as cores da casa dela e descrevendo o rio que ela adora lá em São Félix do Araguaia, quem a vê tão magrelinha e chega a pensar que é leve também por dentro, apenas se engana. Afinal, ninguém vê a mente do outro. Erica não está sozinha. Existem milhões de Ericas no mundo, que penam por não limpar a mente tanto do passado, que não tem conserto, como do futuro, que não existe para ninguém. Se o gênio da lâmpada resolvesse atuar pra valer, centraria todos no momento presente, o único no qual a vida flui, e a jornada de muita gente deixaria de ser qualquer coisa parecida com os doze trabalhos de Hércules.

3 comentários:

  1. Leda Flora bateu a porta: comprou ovos, pediu aulas de informática e entrou na vida de meu pai. E na minha, consequentemente... Clara também entrou. E eu adorei. Foi (e é) a minha irmã. Desde quando o “tio” da 'kombi' que nos transportava das aulas de inglês ousou nos confundir, mesmo sem que nos conhecêssemos. Destino? Prefiro chamar de sorte!
    Naquela época eu não entendia muita coisa, aliás, quase nada. E foi preciso que a Terra desse muitas voltas pra que eu desespinhasse e abrisse os horizontes do afeto, do intelecto, do culto, do bom, do belo. Foi ela, tudo “culpa” dela. Um dia um vizinho disse ao marido da Érica: ela tem um refinamento muito acima da média. E eu pensei cá comigo: nunca soube o que é ter uma Leda Flora na vida. Imagina eu... refinada? Ai, ai. Espero que ela não cobre os direitos autorais.
    E eu agradeço por estar. Sempre, com todas as proximidades e distâncias – amo!

    Beijos, da Érica.

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  2. Aliás... avaliando a impossibilidade de "esbarrar" com o gênio, Érica tenta se libertar de seu confinamento mental tomando garrafadas pra estresse!

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  3. Ledura, meu amor!!! Isso é que é cotidiano...Lembrou-me muito o programa de ontem da Oprah "A Lei da Atração" - já em livro, DVD e filme. Se essa lei de fato existe,então todos seremos muitos felizes e realizados. Vale a pena conferir. Tentarei lembrar o que assisti e enviá-lo a quem amo, como vc. Como sua leitora assídua, estava mesmo sentindo falta de suas postagens. Abria a pg, e nada. Só dava Galeno. Agora, vem essa maravilha. Parabéns,geniozinho da lâmpada. bjs

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