quinta-feira, 30 de julho de 2009

as centauras

Fugi do trabalho um pouco mais cedo e voei para casa. Banho espichado. Esfoliei o corpo inteiro, lavei o cabelo. Depois, usei meu creme mais suave, cheiro bom. Uma massagem no rosto, um batom cor de boca. Conferi a depilação de duas semanas atrás: tudo em ordem. Escolhi um perfume cítrico e optei por um robe branco, bem normal. Peguei as argolas de prata que comprara recentemente em Piri e as vesti. E calcei um chinelinho rosa, desses que não gostam de rua. Estava pronta. Quarta-feira e eu ainda não tinha visto o Andrade naquela semana. E como queria estar com ele. Como um chef, ele escolheria o menu. Eu só queria mesmo ser usada, muito usada por ele. Uma franga.
Ele chegou todo sério, pouca fala. Me deu um beijo rápido. Senti gosto de escritório, de dia de trabalho, frescor nenhum. E amei o meu homem com jeito de realidade, de cotidiano. Um uisquinho? Ele quis água gelada. Quando vinha daquele jeito, com alguma raiva no corpo e na cabeça, fatalmente me enrabava. Sempre cuspindo na mão e passando no pau um monte de vezes, e passando em mim também. Eu adorava receber aquela força masculina. Eu ficava maior, dilatada por aquele homem que entrava em mim gradualmente. E não deu outra: quando puxou a faixa do robe e percebeu que eu estava sem calcinha, me agarrou pelo braço, correu para a minha cama grandona e....
Ultimamente, mulheres deram para escrever coisas assim, expondo intimidades com lupa. Eu experimentei pela primeira vez hoje e percebi: como ficção, tudo bem, como texto confessional, um desatino. Mas sempre aparece um novo livro exibindo uma necessidade louca de contar tudo. Um esmero em detalhes. Eu fico imaginando que tem muita fantasia nos relatos porque é emoção demais, amor demais, sexo demais, ciúme demais, vingança demais, tudo demais. Mas a exposição não sossega aí não, está na fala, no comportamento em festas e locais públicos, no figurino. Olha-se a rua e estamos no açougue, com carnes expostas antes e depois dos sinais de trânsito - peitos, pernas, barrigas. Sequer existe uma barreira estética, pois corpos feios parecem piores quando exibidos em roupas apertadas. Aposentaram a classe, esqueceram a Audrey Hepburn.
Enfim, mulheres livres. Falam, escrevem e fazem o que bem entendem, aos gritos. Mais machistas do que um bad boy de ontem e de sempre. Híbridas, estranhas, centauras fora da mitologia. Exibem abstrações como conquista pessoal, afirmação, atitude. Aliás, atitude é uma palavra in: não diz nada e pode dizer qualquer coisa, com uma íntima relação com poder - eu posso. Creio que andam fazendo uma enorme confusão com o conceito de liberdade, que está ligado a escolhas personalizadas e, não, a comportamento de rebanhos. Mas nunca vivemos um tempo em que as mulheres reclamaram tanto da falta de homem. O mercado do afeto, em liquidação com suas mercadorias desvalorizadas, anda em baixa. Muita gente não o vê como investimento.
Esse feminino de hoje é centauro e tomara que tenha vida curta. A discrição, o tailleur, a meia fina com costura atrás foram sacrificados. Mas não encontraram substitutos à altura. Pior: o mais instigante na mulher era o mistério, o intraduzível, o não saber o que carregava por dentro. Aparentemente, jogaram tudo no lixo quando partiram pra guerra. Guerreiras, sim, mas equivocadas. Os grandes sambistas foram pródigos em composições que falam justamente no mistério feminino, na dificuldade de entrar e perceber esse mundo que nem Freud explicou. E se referiram a elas, muitas e muitas vezes, como fingidas. E fingida, claro, é a desejada. Já reparou como ninguém mais chama uma mulher assim?
Educação, trabalho, boa remuneração, automóvel, casa própria, cartão de crédito, viagens. Tudo bem, são coisas relativamente novas na vida da mulher hoje independente. Mas suponho que foram absorvidos sob uma ótica machista. Do contrário, não haveria uma guinada tão radical. E o curioso é ver as quase meninas, ainda longe de chegarem lá, tocando trombetas e seguindo o exemplo. Qualquer hora vão cuspir no chão e dar porrada. O suposto exercício libertário é uma lástima. Carece de autenticidade porque contraria a essência do feminino, o natural. Deve ser a tal da atitude. Engraçado, as mulheres mais felizes que eu conheço não entraram nessa onda. Somaram êxitos mas não abdicaram do feminino.
Isso não significa aderir à burka. De jeito nenhum. É bom lembrar que Pompéia existiu, que a literatura clássica, e portanto secular, sempre mostrou mulheres cheias de tesão e fantasias, as artes plásticas cansaram de expor a nudez delas. Jamais foram santas, e isso é muito bom. Melhor, perseguiram a boa safadeza, mas sem alarde. Não seria agora, claro, que entrariam na pele de vestais paridas. Mas escancarar o sexo é cruel porque o efeito bumerangue pinta na hora: o desejo leva o maior tombo. Um pouco de dissimulação, de comedimento, é sabedoria, malandragem bem-vinda. E grandes mulheres sempre foram mestras nisso.
Eu imagino o homem diante de uma mulher cheia de atitude. Não tem o orgulho da conquista, o poder da iniciativa, o prazer do ataque. Não canta, é cantado. Nem tira um soutien, elas mesmas o fazem. Sobra o quê? Trocar de lugar com ele, assumindo o papel tão característico da natureza masculina, não tem como dar certo. Uma fria. A graça toda se perde e, convenhamos, cheira a vulgaridade. Aliás, quem age assim nega o próprio homem, desconhece por completo o masculino e, de alguma forma, pode até ofendê-lo. E então eles somem. E então elas reclamam.
Sei não, mas me parece que as centauras conquistaram de fato seu lugar: na sombra.

4 comentários:

  1. Leda
    Caí sem paraquedas no seu blog.Entrei no da Aninha,viagei nas suas poesias e ilustrações. No final cliquei em Papo furado e mergulhei no seu texto. E logo o misto de "realidade e ficção",que num princípio de leitura me levou até você. Sorri, ri te ouvindo e reconhecendo.
    O mais incrível que perguntei hoje,ontem, por você na página da Yara,no site do Caseb 50 anos.
    Te coloco nos meus favoritos e venho lhe visitar e me deliciar com seus textos.
    Saudades,beijos
    Buruca

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  2. E olha aí as coincidências... Buruca, queridíssimo, surgiu em meio aos festejos da CASEB. Depois, Suzana convidando pra almoçar e rindo de sua postagem no blog. Curiosa, olha eu aqui. Leda, você arrebentou nesse seu texto. E aí tá você, cheia de atitude, mas muito mulher, muito feminina. Abreijos, Ana Maria

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  3. Leda, quero dividir com você - e com mais outras tantas mil espalhadas por aí - uma pessoa especialíssima: Buruca, que é Buruca inclusive para a Rede Globo; Buruquete ou Buraco, para mim - ontem, hoje e em todos os fins-de-ano em que ainda nos juntaremos nesta vida.
    O cheirosíssimo Buruca - e o perfume, não sei se você lembra, era produção caseira, fruto do talento de sua mãe! Nunca me esqueci do cheirinho...E nunca me esqueci de tantos momentos em que morremos de rir de qualquer coisinha à toa. Buruquete, Nani e eu. Ainda hoje, a cada dezembro, bem perto do Natal e do Ano Novo realizamos - nós três, principalmente - o nosso festival particular de gargalhadas e reminiscências. Ô coisa boa!
    Enfim, nem vou tentar lembrar há quantos anos estamos juntos...são muitos, milhares! Mas é bom lembrar sempre que nestes anos todos eu sei por onde ele anda, ele sabe por onde eu ando [aliás, o telefone dele de Brasília é o mesmo desde sempre, um dos pouquíssimos que eu sei de cor, sai de uma vez só] e sabemos os dois que uma amizade é mais do que o encontro rotineiro mas, principalmente, a alegria do reencontro depois de algum bom tempo sem contato.

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  4. Pois é, mais uma vez o Buruca. Me indicou o caminho pra chegar aqui. Texto hiper-realista. Confesso que mudei um pouco quanto a ter a exclusiviade da iniciativa, tenho quase 60, daí sou dessa geração de transição veloz entre muitos valores. Quando quero uma mulher e sinto que ela me quer, deixo que ela me instigue, mas não pode demorar, aí eu vou eu. Sinto mesmo falta de mulher de saia, é lindo, salto alto jogando saliente as panturrilhas, os pézinhos escondidos no sapato, mostrando um pouco dos dedos, só o começo dos contornos, são como que quizessem ser beijados. Mulher no comado é bom para o ego do homem, depois o equilíbrio, é só alegria, vontade de viver, de tocar, de beijar.
    Pele de veludo, beber a mulher e ficar pelo descontrole da paixão...
    Se eu continuar nessa linha, vou longe.
    Valeu a pena meu amigo mostrar-me o rumo do Papo Furado. Brigadão Leda.
    Cascão Júnior
    Cascao@globo.com

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