Brasília, 3 de Agosto de 2009
Buruca querido,
Quando abri ontem meu blog e encontrei você, tive uma crise séria de felicidade. Comecei achando computador o máximo, internet o máximo. Combinou bem com o domingo de sol, me soou como um presente e, na hora, lembranças até então sossegadinhas, quietinhas, pularam lá de dentro, me animando. Vieram fragmentadas, sem ordem e sem data, a começar pelo seu eterno cheiro de saí do banho agora. Você tinha um cheiro muito bom. E o cabelo? Dourado, caindo no rosto e sempre sua mão mandando mechas para trás. Aí me apareceu o sorriso perfeito, a cara alegre, o jeans meio folgado. Eta Buruca bonito.
A voz limpa, clara, grave. O corpo sempre pronto para a dança, solto e cheio de ritmos. Lembrei de nós no apartamento da minha mãe, na sala enorme, dançando e nos vendo refletidos no vidro fechado, espelho quebra-galho. Inventamos passos, rodopiamos até e, como sempre, rimos e nos divertimos muito juntos. Aliás, o sorriso era seu companheiro constante. E todo mundo gostava de você. Se havia um cara popular, era você. Todo mundo o conhecia. Todo mundo queria aproximação. Ninguém tinha mais amigas mulheres do que você, que carregava um jeito de intimidade. Muito naturalmente.
Na UnB também fazíamos a festa. Aquelas manhãs eram ótimas. Eu nem me incomodava de acordar pouco depois das seis da manhã. Tudo valia a pena. Será que o Azevedo, o capitão reitor, sabia que seu pai era comunista? Lembra do Geraldo e suas aulas de cinema? Que cara mais gente fina! Ele continua por aqui, casado com a Lourdinha e fazendo filmes. O Salomão também era legal. Não faz muito tempo eu o encontrei num consultório de acupuntura e ele me contou que fugia de médicos fazia mais de uma década. Doidinho como sempre.
E aquele protesto contra a faculdade de Comunicação? Sob o slogan "seja reprovado e ganhe um volkswagen", causou o maior mal estar. O coordenador, cujo nome esqueci, aquele que dava aula de psicologia, era padre, mas acabou casando, ficou puto e retirou nossos cartazes. E teve uma outra, a primeira campanha feminista do pedaço. Dizia: "nós temos 10 dedos". Foi um auê, as paredes da faculdade cheias de besteiras. E os hôme de cara feia.
Lembra do seu Antonio do cafezinho que chegou a ser lembrado para paraninfo? Pô, Buruca, a gente fazia tanta bobagem, brincava tanto! Sabe, foi uma época muito feliz na minha vida. Eu adorava . Tinha a Reginona, que acabou "Frenética", o Fernando Luz, a Suzana Veríssimo, a Dulcemir e o Fernando, a Leda Berlim. E a Aninha, magrela, magrela. Olhava pra ela e pensava: é musa, cabe direitinho no existencialismo, é linda.
Um capítulo à parte: Valéria Xavier e Silva. Chegava naquele carrão de dez metros, o único do campus, os cabelos louros esvoaçantes, o corpo lindo. Mas falava pushiquê no lugar de porque. Mudou o sotaque em dias, deixando Goiânia para trás. E você, meu lindo de olhos de uva, ficou caidinho. Já fora da UnB, formávamos um trio e tanto. Lembra dos nossos encontros na 311 Sul, no apê daquela figura distinta que sabia de cor e salteado as boas maneiras, o protocolo, os passos para se comer um mamão sem tirar a casca? E você me sacaneando:"Leda, você nunca será uma lady!" Pura verdade. E a galinha ao molho pardo, você chegou a comer? Aquelas eram noites divertidas, som de primeira, muito jazz, muita mpb, uisque do velho barão do Rio Branco, um luxo. Peças e peças do Ceilão, tapetes e tapetes persas. A gente nem conhecia essas coisas.
Meu amor, não me ligo em passado, nos tempos que não voltam mais. Mas aquela época foi tão gostosa que estou adorando esses pedacinhos dela. Era tão bom estar com você, conversar com você, trocar com você... Você sempre me abraçava, como de resto abraçava todas as amigas, e seu abraço era bom também. Parece agora que ouço sua voz. Conheço-a perfeitamente. Eu a identificaria de olhos fechados em qualquer lugar, em qualquer circunstância.
Ah, outra memória: estávamos nós e a Valéria e você fez previsões: eu seria uma profissional séria do jornalismo, você buscaria a arte e o espetáculo, Valéria casaria com um homem rico. Acertou, garoto. E aquela noite em que te vi no palco ao lado da Marilia Pera, no Rio, e depois jantamos. Ela era casada com o Nelsinho Mota e, se bem me lembro, ele mal falou no restaurante. Vocês ainda são amigos?
Bom, eu fiquei nessa Brasília , depois de viver um tempinho em São Paulo depois de formada. Valéria foi pra Bahia e você nunca mais deixou o Rio. Quando você aparecia para visitar sua família, nos víamos. Mas nos últimos anos você desapareceu. Logo você, um pedaço graúdo, caro e feliz da minha juventude. Ainda bem que a amizade tem uma característica: não se perde a intimidade não obstante hiatos e distâncias. Então, vamos ressurgir na vida do outro? Que tal a gente começar com você me mandando seu email? Estou com tanta saudade de você!
Quero te abraçar de novo e sentir o teu cheiro. Beijos e mais beijos da Leda.
PS - Te amo.

Aos prantos não consigo falar. Muito menos escrever. O importante é que estamos de volta.
ResponderExcluirUm resgate necessário e oportuno.
Vou continuar chorando de alegria e prazer com suas palavras e seu amor.
Tocou a campainha era a moradora do 201 que veio pagar o condomínio.Sou Síndico.Seu Luiz.
Pedi desculpas por estar chorando ela achou que estava resfriado.
Vou descer. Comprar cigarros a varejo. Estou tentando parar de fumar.
Temos muita figurinha prá trocar.
Beijos. Te amo.
Buruca
Luiz Carlos Buruca,meu vizinho de entrada na SQS 306 e meu colega de UnB, tão bom saber de você!
ResponderExcluirE de constatar que o amor , que o carinho de vcs dois continua. Tão longe e tão perto!
Beijos,
Leda Berlim
Buruquets e Leda Flora, vamos acabar com essa sacanagem de choro, de emoção, de te amo pra cá, te amo pra lá, que eu aqui fico morrendo de ciúmes!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Em tempo: eu aqui sou a Suzana e se vocês ousarem marcar algum encontro que não me inclua, fico de mal e desapareço da vida de vocês para SEMPRE! Agora, Buruca, que você era lindo e cheiroso, era mesmo. E a Leda Flora continua a mesma maravilhosa de antes. Aliás, melhor ainda, porque agora está mais velha, mais madura, sabendo mais das coisas. Beijos nos dois.
ResponderExcluir