quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

a corrupção e a sombra

O menino dá de pular e correr pela sala de estar. Feliz da vida, seguro na própria estripulia. Mas acaba se machucando na quina da mesa e chora. A mãe aponta o móvel como culpado, finge brigar com ele. O dodoi passa e, dias depois, o menino repete o comportamento. É mais ou menos assim que vejo o governador de Brasília, José Roberto Arruda, no centro do escândalo que há seis dias dá pano pra manga no cerrado e no resto do País. Aliás, muito pano, já que o esquema de distribuição de dinheiro pegajoso atinge os três poderes locais e reforça a ideia da capital como um maná para a corrupção.
A infantilidade parece tomar os políticos. Eles acreditam que podem tudo e que nada lhes acontecerá de ruim. Iguais ao menino, lotam a mente de pensamentos mágicos. Ignoram o óbvio, como escutas telefônicas e gravações de vídeos. Confiam, como é o caso de Arruda, em colecionadores de processos na Justiça, como o meliante Durval Barbosa. Decidem entre aspas que o segredo da safadeza será mantido, embora dezenas de pessoas o conheçam. Político acredita em Papai Noel e a prova, neste caso, está na desculpa da distribuição de panetones, um mimo típico do Natal.
Quando estoura a mamata, a história se repete: o corrupto, simultaneamente malfeitor e vítima no momento do tombo, esperneia: alguém quer desestabilizá-lo, o mundo só tem traidor, ele é um sujeito do bem. Costuma dizer eu tenho certeza da minha inocência. A palavra certeza é uma espécie de senha ligada à culpa. Afora os loucos, todos conhecemos o próprio comportamento. Ninguém pode alegar certeza em casos assim. Do ponto de vista lógico, sem cabimento, pois tudo se resume simplesmente ao sim ou ao não.
O conceito de sombra é de Jung e ensina: o que se rejeita enfaticamente da realidade é tudo aquilo que o homem não quer ver em si mesmo e no outro bem próximo. Assim, as coisas "feias", o tal do nosso lado negro, é jogado no inconsciente. Perigo, pois todos temos a sombra mas não a conhecemos. O jeito é projetá-la como mal anônimo do mundo, fora de nós. Ou então sentir às vezes a própria ira, o ímpeto, a maldade e a ganância, sob o rótulo de emoções negativas, mas colocar o pé no freio.
Depois de Jung, estudiosos da mente perceberam que o poder tem força para desencadear aspectos da sombra no comportamento dos políticos. Sem abranger a totalidade deles, claro. Por isso, o candidato acaba muito diferente quando transformado em titular de um cargo. Nós não nos enganamos ao votar, eles é que mudaram. Não há solução coletiva para o problema. Quem quiser trabalhar a própria sombra que vá para o divã.
Por isso, boa parte dos males do mundo vem dos políticos, nós acreditamos. Cada vez mais, separamos essa classe de nós mesmos como se fossem seres diferentes, mais para podres, avessos a um comportamento razoável. Nós, que garantimos a eleição de todos eles, não temos nada com os problemas que nos causam. A sombra da gente não escapou do inconsciente e agiu, ao contrário do que aconteceu com eles. Portanto, sumam, canalhas, vocês merecem a queimação nos quintos do inferno!
Mas repara só que dinheiro fácil é um desejo universal. As provas estão aí: loterias, cassinos, tesouros perdidos no mar, programas populares da tevê, sorteios, rifas, carteado, bingos. A contragosto, acrescento à lista a corrupção que, ainda bem, não atinge todos nós. Quem nunca sonhou um segundo com algo assim, levante o braço, se apresente. Deve ser um ET. Falando desse modo, parece até que justifico os atos de Arruda e seus amigos. Não, nada disso. Como todo mundo, também quero uma administração pública que não provoque náuseas. Mas, infelizmente, vejo na situação um problema dolorosamente humano, parente da violência urbana que tanto nos assusta, nos vitima, nos faz mal.
É, cabeça de gente assusta. Insana, estranha. O que mais me incomoda é perceber que comportamentos nocivos certamente causam prazer, o que vale tanto para o assaltante como para o governador Arruda e cia. ilimitada. Eu só me lembro dele sorrindo na mídia, a cara boa, feliz da vida. Caso contrário, não seriam repetitivos. Prazer situado acima do risco e da prudência. Da ética e da sensatez. Prazer tóxico. Prazer que emporcalha a vida de todo mundo, que joga a esperança no lixo, que dá vergonha em todo mundo, que diminui o espaço do sonho. Do sonho bom.

2 comentários:

  1. Leda, adorei!!!!!!
    Políticos são A TREVA!!!!!!!!!!!!!!!!
    Transfiro para vc uma poesia que fiz há anos:

    A Esmo.

    Há os que esperam
    e os que são esperados.
    Há os que esperando viram pó,
    e os que não vindo
    viram lenda.
    Há os que veem
    e os que são vistos.
    Há os que vendo
    de inveja vão morrendo.
    Há os que sendo vistos
    de orgulho vão vivendo.
    Mas a grande tristeza desta vida
    é que, por não se verem a si mesmos
    todos estaõ, de qualquer forma,
    sós, angustiados e tristes.
    E então a solidão persiste...
    Mas assim mesmo,
    todos têm o dedo em riste!
    ...E SEGUEM VAGANDO A ESMO......

    Não sei para quem fiz, em que mem inpirei, mas cabe bem no caso dos políticos. Beijos, te amo.

    Sonia novaes

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  2. Amo as duas, uma pela prosa, outra pelo verso!

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