terça-feira, 22 de dezembro de 2009

o acidente

Esta noite me deu uma surra e acordei hoje quase tonta. A experiência de ontem me tirou do sério. Vivi pela primeira vez, volante na mão, um acidente de carro. O coitado vai para a oficina e eu não quebrei nem a unha. Agora sei que, mesmo assim, uma coisa dessas mexe emocionalmente com qualquer um, talvez por mostrar que o risco anda em toda parte e não poupa ninguém. O susto passou mas eu ainda me vejo com a cara de tacho, boca seca, nervosa e cheia de medo como a menina que se perdeu da mãe na rua movimentada.
Contar o acidente com minúcia, missão impossível pra mim. Um, dois segundos e... bateram ! A gente ouve o barulho, o coração pula na boca e vem um gosto de desapontamento. Naquele momento, o compromisso que nos aguardava vai para o espaço. Chama-se a polícia. As pessoas mal olham, pois não há sangue e um corpo no chão. Os envolvidos saem dos seus automóveis e conferem os estragos. Conversa difícil. E logo tão perto do Natal, do Ano Novo... Um episódio assim modifica planos, engole um pedaço de alegria da gente. Mas é, simplesmente é.
Renovei há menos de um mês minha carteira de habilitação e me obrigaram a optar entre uma prova e um curso de reciclagem. No primeiro momento, contrariedade, pois não queria nem uma coisa, nem outra. Mas ao estudar o Código de Trânsito Brasileiro, percebi o ganho. E o que mais me surpreendeu foi a possibilidade de acidentes. Jamais percebera essa realidade, embora saia diariamente acelerando por aí.
Trânsito é o cruzamento de milhares de pessoas nas vias. Vale dizer, milhares de cabeças. Para uns, a máquina é arma e ajuda a robustecer a agressividade pessoal. Para outros, automóvel é temor e precisa ser empurrado devagarinho com o pé direito. Não querer enxergar ninguém e guiar-se pelos próprios interesses, em geral imediatistas, não chega a ser exceção nas ruas. E assumir ou não responsabilidades enquanto condutor é o dilema que nem deveria existir. Mas está aí na cara de todo mundo. Enfim, trânsito é educação,civilidade, um retrato sem retoque da sociedade.
No Brasil da corrupção que ninguém desconhece, uma palavra-chave é impunidade. Ela se aloja numa boa também no trânsito, pois as urgências e desejos costumam estar acima da lei. O suborno, velho conhecido da pátria amada, responde presente quando alguém é flagrado e, se não há policiamento por perto, adeus, prudência, viva a liberdade e seja o que eu quiser. Se não há vagas no estacionamento, para-se em qualquer lugar e, se alguém é prejudicado, paciência. Faixa de pedestre, para uns, mera convenção sem força legal. Caminhões e ônibus trafegam pelo lado esquerdo das vias, motoqueiros ultrapassam pela direita. Pelo menos, em Brasília quase não se buzina e as vans deixaram de circular. Ufa!
As emoções de ontem deixaram sequelas e, falando assim, até pareço a motorista exemplar, com a consciência alemã de que um por todos e todos por um constitui a primeira regra do trânsito. Não sou e cometo meus pecados, mas com uma parcimônia de economia de guerra, a bem da verdade. Não despejo meu egoismo nas vias, não xingo motoristas, não enlouqueço no engarrafamento. Mais: nunca paguei uma só multa. Por sorte. E olha que sou barbeira.
Mas voltando ao meu acidente: aconteceu perto das três e meia da tarde, depois de uma chuva pesadíssima. Entrei numa rua e a água descia como um rio. O volante não me obedeceu de jeito nenhum, desacelerei um pouco e o rapaz que vinha atrás me pegou. Um terceiro bateu no segundo. Engavetou. Dois rapazes educados e uma mulher com olhos de desespero. Acertamos que cada um bancaria o próprio prejuizo. E a culpa? Ora, do clima e, mais ainda, da China e dos Estados Unidos. Afinal, desrespeitam acintosamente a natureza , mais do que o resto do mundo, aumentam a temperatura da Terra , favorecem as mudanças que pioram nossas vidas, e conseguem fazer da Conferência de Copenhague um fiasco. Se os dois dirigissem no Eixão, seria a 200 por hora.

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