domingo, 6 de dezembro de 2009

rinite

Minha amiga M está às voltas com uma rinite alérgica daquelas. Entope-se de antiinflamatórios. Mas compareceu ao terapeuta esta semana e acabou percebendo que a alergia tem um foco: o marido dela. Viajou para aproveitar o mar quente do Nordeste e com 24 horas por dia ao lado dele, o corpo deu um nó. As dificuldades emocionais descem da mente e entram em nós na forma de doenças, embora o comum seja acusar virus e bactérias por quase tudo.
Na realidade, M não costuma dividir o dia a dia com o marido. Vivem em cidades diferentes por conta de trabalho e se encontram quinzenalmente. Sequer têm muita oportunidade de roubar a colcha durante o sono e fazer o outro acordar de frio. No entanto, o que poderia ser pretexto para um namoro gostoso e demorado não funciona. Agora ela explodiu com os mucos entupindo os caminhos da face, enquanto ele continua no cultivo de uma velha depressão.
M não tem dúvida alguma sobre os dias sem graça que vive empurrando com a barriga faz muito tempo, mas também não consegue nada além do diagnóstico. Não consegue mudar nada. Ela se indaga sobre a força de tantas mulheres que conseguem quebrar um vínculo doente e inventar um cotidiano novo, mas ela própria não enxerga um caminho original. Na cabeça dela, os incomodados que se mudem, como se dizia antigamente. Então, como tem apego à sua morada, adoece. E isso é tão simbólico como real.
Ora, o único caminho percebido por M não constitui trilha nenhuma. O problema está no medo. A gente se equilibra muito mal entre o medo e o desejo. Reparando bem, a dupla está geralmente por perto. E acabamos por optar pelo que já conhecemos embora nossos desejos sejam outros. Por puro medo de uma paisagem nova. Por isso, é lugar comum ouvir ruim com ele, pior sem ele. Ora, opção pressupõe escolha entre coisas diferentes e ruim e pior pertencem ao mesmo grupo. Penso que entre a certeza da dor e a tela em branco, melhor esta última. Como não se dar uma chance?
Percebo que a mulher muitas vezes costuma ter o desejo de unir o permanente ao provisório. Mas, na maioria dos casos, fica apenas na fantasia. Nada mal, em especial na maturidade, somar ao lar constituído vivências mais atraentes. Se pudéssemos ter o marido de um lado, e a aventura do outro, sem maiores problemas, certamente a vida ganharia mais riqueza e emoção e seríamos todas mais felizes. Como os homens, mulheres também espicham o olho para outros, sem exceção, embora não o tempo todo.
Mas sair da fantasia e dar de cara com um triângulo pode assustar no começo. Administrar medo e desejo com culpa exige talento. Contudo, não é uma coisa do outro mundo. Quem é que não conhece pelo menos uma mulher que trai? Quem nunca leu um romance ou viu uma novela que trata do tema? As que ousam, se atrevem, não diferem em nada das outras. Talvez apenas no ímpeto de experimentar. E existem inclusive as viciadas nesse comportamento. Eu só não conheço as arrependidas.

4 comentários:

  1. D. Leda, vc nem imagina como é difícil para mim até pensar em trair. Precisa ter o dom. Eu não tenho. Mas sei que perdi bons momentos por causa disso. Também conheço quem fez, e com certeza nenhuma se arrependeu.
    Sonia Novaes

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  2. Prefiro lutar a vida toda a me casar 5 vezes e nunca crescer. Trair? Adianta para quê?
    Homens traem, mulheres amam! É muito diferente, Leda!

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  3. É certo que tudo tem seus maus momentos, mas o pior momento que já conheci foi na frente do Juiz assinando o divórcio.

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