Inadvertidamente você cai num ambiente muito diferente do seu. O estranhamento é imediato e o corpo, que não consegue mentir, reage: joga - se o tronco ligeiramente para trás, uma encolhidinha básica na região do peito, na busca de proteção ou recuo tático diante da situação. A gente nem pensa no que está fazendo, não escolhe nada e, sim, atua na base do condicionamento. Creio que agimos de acordo com a classe social a que pertencemos. Ninguém costumar sorrir nesses momentos em que simplesmente nos fechamos, dizemos não ao contato.
Até me lembrei da minha avó materna. Parece que a ouço agora dizendo "cada tampa na sua panela"com alguma insistência. Outras recordações infantis me conduzem a mulheres que trabalhavam em todas as casas, sem sábado, domingo, feriado, direitos, consideração. Creio que os patrões nem concebiam a possibilidade de sofrimento delas e apenas as enxergavam como máquinas sem alma. Essa noção de desigualdade penetra nas células e forja comportamentos alheios a qualquer raciocínio.
Por essas razões, levei um susto quando, recentemente, viajei para a Ilha de Marajó, saindo de Belém. Comprei uma passagem de navio e, na hora agá, entrei numa gaiola amazônica, uma embarcação imune a qualquer conforto, com capacidade para 600 pessoas. Um forno com as laterais abertas, sem lugar para bagagem, com plásticos enrolados e prontos para uma descida na hora da chuva paraense. Alguns rasgados. Lá dentro, uns 300 viajantes com feições predominantemente indígenas. Estava longe da minha turma e com três horas de rio pela frente.
Como o susto costuma durar pouco, consegui me recompor rapidinho e esqueci os preconceitos que me enfiaram cabeça adentro. Vitória, um ano e oito meses de lindura, fez contato imediato com meu peito e brincamos. Minha pulseira virou uma coroa na cabeça dela. Logo descobri que o barato da menina era relógio, e o meu trocou de pulso na hora. Conheci a mãe dela, que me pareceu uma mulher muito doce, muito legal. Saí andando pela gaiola e muita gente dormia. Um festival de pés sujos. Outros viam futebol pela televisão, única diversão a bordo.
De repente, estava enturmada na gaiola, conversando muito. E a viagem voou. Vi ilhas de cair o queixo, obtive informações amazônicas, ouvi boas histórias, ri muito. Quebrada a barreira que de verdade nem existe, senti a riqueza gerada pelo contato, e contato é soma, liberdade, troca, enfim, o melhor da vida. Aprisionados na própria classe social, com certeza perdemos muito e não aprendemos com o outro que estudou menos, mas sabe o que nós não sabemos. E depois, gente é gente, sempre com seus encantos e manhas.
Quando voltei do arquipélago de Marajó, viajei num catamarã ajeitado. Civilizado. Ar condicionado. Bonitinho. Sem índio. Umas 13 pessoas arrumadas, ligadas em fotografar a paisagem. Passavam uns pelos outros e sorriam com elegância. Um casal francês contido devorou mangas; depois, a mulher pegou no sono. Ninguém falou com ninguém. Sem hipocrisia, não vou jurar que embarcar novamente numa gaiola virou meu novo sonho de consumo. Claro que não. Mas que foi bem melhor, foi. Uma experiência difícil de esquecer, uma energia diferente. Afinal, a felicidade só existe se compartilhada.

Leda, seu texto está muito inteligente. Parabens.
ResponderExcluirSonia
E muito sensação!
ResponderExcluirVc se permitiu o contato e ganhou muito com isso! Beleza pura, puríssima.