Anos atrás, li uma frase e me lembro dela de vez em quando: "a mulher que se interessa pela sua beleza é a mulher que se interessa pelo amor". A memória me roubou o autor, mas talvez seja o Henry Miller. Talvez. O contexto passava fora da vaidade excessiva, peruagem e quetais. E se colava no desejo e na sexualidade, expressando o cuidado feminino com a aparência e sua ligação com as possibilidades do amor.
A frase vestia qualquer mulher: as mais novas e as nem tanto, solteiras, noivas, casadas, separadas, viúvas, amantes, ficantes, sozinhas. Sem distinção. Democraticamente. Uma espécie de senha indicativa de abertura para o prazer abusado ou não. Que também pode ser traduzida, nos dias de hoje, pela preservação do espaço para uma vida pessoal mais intensa, sem um spot daqueles fortíssimos na obrigação e na correria diária.
Essas ideias chegaram porque tenho percebido que um time numeroso de mulheres entregou os pontos. Cruzo com elas por aí e me surpreendo com a falta de gosto por si mesmas. A maneira como se vestem, o corpo relaxado, o jeito de andar, o olhar sem brilho e indiferente ao entorno formam um conjunto revelador. Mas o forte mesmo está no discurso ausente de fantasias, de qualquer observação maliciosa, com ênfase nos valores familiares. Como se fossem os únicos.
Se eu tivesse coragem, diria para elas: um pouquinho de sacanagem, por favor. Pediria que acordassem como as manhãs e explodissem de modo solar. Que corressem rindo de uma chuva. Que tentassem dançar e curtir o próprio corpo. Que vissem filmes impróprios para menores. Que se lembrassem da masturbação. Que não cavassem um buraco pessoal para se esconder da vida. Que insistissem na ideia de um homem e não enforcassem as tão gostosas lembranças do prazer.
Algumas enfatizam o fato de estarem sozinhas. E daí? Se não há naquele momento possibilidade física de aconchego, isso não significa a cremação do desejo, que precisa existir sempre, ainda que na pele de uma ideia, um sonho, uma risadinha, um fim a ser perseguido. Amor é vida e concede a vida, natural como comer, falar, dormir, respirar, andar. Então por quê dizer não a ele, impedir que aconteça, se armando de precaução mediante um visual sem graça e internalizando sem motivo a convicção do fim de linha?
Entendo a armadura anti-sedução como medo da rejeição, insegurança, fuga da competição e garantia da zona de conforto preventiva de decepções. Mas todos nós conhecemos esses sentimentos, muito presentes ou esporádicos na caminhada, e o jeito é lidar com eles de alguma forma. Vale o risco, a ousadia. Não vale é dizer não ao corpo e à mente. Agindo assim, na primeira anestesia a pessoa bota pra fora anos acumulados de negação e repressão sexual, circunstância conhecida à exaustão pelos médicos, provando apenas que aquilo sempre existiu dentro dela.
Sempre é tempo para um vestido novo, um corte de cabelo invocado, uma pele tratada, um perfume de primeira. O arsenal de técnicas e produtos focando a beleza não para de crescer. À disposição de toda mulher. Há saída para tudo fora do desânimo. E não custa lembrar uma frase da Marilyn Monroe, que de burra não tinha nada:"Mulheres comportadas raramente fazem história".

Pois é,Leda, estou aqui encantada com seus posts que têm tudo a ver. Li a maioria deles antes de me aventurar aqui. Mas acho que prá nossa geração vc fala alto e bom som, o que hoje em dia é raríssimo! Estamos, vamos ser francas, naquela fase horrível sem saber se somos ainda desejadas ou se podemos pendurar chuteiras. E vc vem com seu furor ultramoderno aliciando para a vida. A vida. E ainda com a diáfana Marilyn, com a quela frase definitiva.
ResponderExcluirÉ isso, quem se '' comportou'' perdeu o bonde. Mas há salvação. Em todos os sentidos e direções! Seu blog é um oásis, fala diretamente -- o que é raro hoje em dia neste universo totalmente congestionado e pirado da globosfera. Fiquei freguesa!