Sonhei com um mundo calmo, com os sons do mar e do rio carregados de mansidão, com o relincho do cavalo no pasto, com passarinhos cantando, com a viola enluarada e um cantor, com o riso de um menino jogando futebol. Acordei na capital com mais de dois milhões de pessoas e mais de um milhão de carros, com o barulho de obras perto de mim, com vozes desconhecidas invadindo meu canto. Sonhei antiga e acordei moderna.
Os ruídos urbanos me assombram. Talvez por observá-los. Gostaria de conviver numa boa com eles, colaborar com eles, me sentir um ser soante. Cada vez mais, no entanto, prefiro lugares onde posso escutar o vento, onde a paisagem predomina sobre a construção, onde a natureza esconde a própria força falando baixo. Mas lugar para se morar nem sempre é escolha. Assim, os silenciosos tornam-se refúgios temporários que me abastecem para aguentar o retorno ao barulho.
Para completar, até o lazer fica difícil para inadaptados ao volume da cena moderna. Você entra no cinema exclusivamente para assistir a um filme, mas é obrigado a ouvir bem mais do que seu aparelho auditivo merece. Embora atores falem mais em outras linguas e a tradução faça parte, tudo é gritado. Quando surgem os efeitos especiais, a música se encarrega de subir às alturas para chamar atenção sobre eles. Calma, calma - gostaria de explicar -,estou vendo, estou percebendo, tudo está escuro à minha volta , olho com atenção para a tela, não me trate como idiota.
Espetáculos musicais também adoram aquele monte de caixas de som. E provavelmente querem alcançar dois ou três quilômetros além do palco, pegar alguém desprevinido, convertê-lo. Como sempre acontecem com muitos decibeis acima do razoável, imagino que o conceito de volume virou sinônimo de animação, interesse. E, claro, as pessoas devem adorar. O problema está em mim mesma e a preferência por sonoridades encantadas e intimistas, como as de João e Rosa Passos, tão delicadas que acariciam, com zero de agressão auditiva.
Em festas mal se pode conversar. Quem manda é o volume do som. Aliás, a modernidade tem mesmo um viés individualista. Conversar para quê? Ver, sorrir ou dançar diante de um espelho já está bom. Interagir ficou velho, o outro tem pouco a dizer, a troca é perda de tempo. Às vezes, o chão parece tremer e o coração salta sob o comando de um DJ ou de um conjunto musical. É qualquer coisa anti-romance, a sutileza substituída pela animação e abrindo espaço para a explosão do ego. Mas será que alguém repara alguém?
Mas o mundo é o mundo, com seus jeitos e trejeitos que optam por caminhos sem perguntar se a gente está gostando. Portanto, só me resta o convívio com a altura de sons incompreensíveis para a minha sensibilidade e que me trazem cansaço e irritação. Como reclamar costuma ser uma atitude pouco inteligente, por não ensejar a sonhada mudança, digamos então que as pessoas da minha geração nasceram desabilitadas para curtir o barulho enquanto os aparelhos auditivos mais recentes o recebem sob palmas. Como não tenho um chip para mudar a situação, só me resta o convívio ruidoso e o carimbo de inadaptada.

Leda, concordo totalmente com você.
ResponderExcluirAcho que essa nova geração faz tanto barulho para preencher o vazio dentro de si mesmos.
Que pena, não ouvem a voz do coração. Coisa que gente mais antiga, como nós, sabe fazer tão bem, e sabe o bem que isso faz.
Sonia
Talvez por eu também ser antiga, e por fazer a escolha do morar (!) é que escuto o rio Araguaia fluir, os "passo" preto cantar no meu quintal, e uma cidade inteira, com 5.000 habitantes, interagir!
ResponderExcluirViva a grandiosa pequenez das cidades do interior!
Adoro ler-te, bãe!
Beijão.