segunda-feira, 24 de maio de 2010

a lição de Fulaninha

Sozinha e desanimada, Fulaninha roçou a depressão. Até o ritmo da fala mudou, ficou arrastada, lenta. Sob uma ansiedade difusa, o jeito foi abrir a boca. Afinal, algum prazer haveria de ter. Na rua, procurava vitrines de doces e se supreendia dizendo sim a um monte deles. E carregava para casa outro tanto e os dividia com as noites vazias. Já nem pensava em pegar um cineminha, curtir um espetáculo. Caminhava olhando para baixo, o corpo caído expondo desalento.
Mas eis que surge uma doce figura vinda do tempo da irresponsabilidade, quando o máximo de obrigação era a escola, o dever de casa, a prova. Um reencontro quase casual, cercado de lembranças leves e gostosas. Fulaninha realinhou um sorriso ainda titubeante e, quando reparou, andava de mãos dadas com ele. Um pouco mais, esqueceu o medo do futuro, a tristeza. E celebrou como qualquer adulta: comidas e bebidas das boas. A dois.
No meio do caminho, a viagem gastronômica. Quem aguenta? Deixou pra lá a certeza de que aquela calça linda não fechava na cintura. Empanturrou-se de A a Z e teria ido além se o vôo da volta não estivesse marcado. Calhou de conhecer novos sabores e exclamou hum! em todas as refeições. Mas jurou: quando chegasse, tomaria as providências e perderia peso rapidinho. Na maior disciplina.
Correu no nutricionista super indicado. Foi de qualquer jeito, com a primeira roupa largona que apareceu na sua frente, a cara lavada, uma sandália qualquer. Esperou pouco e quando a recepcionista abriu a porta para a consulta, disparou. Mas freou quando viu o profissional de jaleco branco. Era de cair o queixo. Fulaninha perdeu a concentração, passou a responder ao questionário inquieta e, em vez de pensar nos quilos que perderia, fez uma aposta mental: só vendo ele em pé, o corpo dele, pois alguma coisa errada haveria de ter.
Perdeu a aposta quando ele se levantou. Como podia um homem tão perfeito? A admiração virou vergonha quando ele solicitou que tirasse a roupa. Corada, colocou o vestidão de lado e exibiu uma lingerie de quinta. Não tinha para onde correr e quis morrer em pleno vexame. Estava despreparada para a seminudez na frente de uma criatura tão privilegiada no quesito estética pessoal. Embora tudo entre as paredes brancas fosse profissional, quem gritava muda dentro dela era a mulher, que deveria, no mínimo, estar com o sutiã sem uma alça puída.
Deixou o consultório com a dieta na mão e a beleza dele na cabeça. Arrependida pelo próprio desleixo. Impactada com o poder que emana das belas criaturas e buscando reter na mente cada pedacinho do nutricionista. Por alguns momentos, esqueceu do namorado, do trabalho, do banco. Fulaninha reconheceu que fazer feio diante de um deus Apolo em carne e osso machucava a alma e nem percebeu que o sentimento dela era muito comum entre as mulhere pois, independente do motivo para tirar a roupa, ou mesmo ficar vestida, nenhuma quer se sentir menos diante de um homem especial.

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