terça-feira, 4 de maio de 2010

Grão Pará

Concedi férias a este blog e parei no Pará por uns dias. Percorri a cidade de Belém e fui também à Ilha de Marajó. Voltei com a grandeza amazônica pulando na minha cabeça e com a infinita alegria de conseguir gostar ainda mais do meu país tão rico, marcado pela diversidade. No Norte, lembrei da serra gaúcha, da orla nordestina, da cidade de São Paulo, da beleza estonteante do Rio, do pantanal matogrossense, do delta do Parnaíba, da Mata Atlântica, do cerrado. Muitos brasis em um só, cada um mais lindo do que o outro.
Para os amantes da gastronomia, ir a Belém é um ordem. Tudo começou com os índios e a natureza e ganhou impulso por conta de um arquiteto visionário, Paulo Martins, que trocou a prancheta pelas panelas ao perceber as possibilidades que a terra dele encerrava em sabores e misturas de ingredientes. Criativamente, arregaçou as mangas, vestiu o avental e, depois de muito trabalho, grandes chefs do mundo provaram da sua comida - arte. Convenceu todos eles.
Em 2004, o chef espanhol Ferran Adrià, que ostenta o rótulo de número um do mundo e andou por lá, afirmou que a gastronomia do século XXI passaria pela China e a Amazônia. A declaração ecoou por toda parte e os fogões encantados do Pará experimentaram um boom que não parou de crescer. Em 2008, Paulo Martins sofreu um problema de saúde e não mais se recuperou. Mas o trabalho fez escola e ele será, com certeza, a maior referência de uma gastronomia cem por cento brasileira, com lugar garantido na História. O restaurante Lá em Casa, criado por ele, continua de portas abertas e sob o comando de duas filhas.
O que se come no Pará é muita delicadeza. Frutos do mar, do rio e das árvores se juntam mas preservam seus sabores, pois nada é sufocado por temperos fortes, a exemplo da comida negra. E o índio está na raiz, como indica o próprio vocabulário, que nos fala de tucupi, tacacá, cupuaçu, açaí, mandioca, para ficar nos mais conhecidos. Aliás, o aproveitamento desta última é integral, mil maneiras de uso. Come-se bastante mas é tudo muito leve, pouquíssima gordura, e o aparelho digestivo não reclama nem um pouquinho. Ninguém deveria morrer sem antes provar uma torta de bacuri.
Mas Belém não é só comida, embora o mercado Ver o Peso seja imperdível também. A arquitetura é bonita, os museus, de qualidade, as praças e parques pedem fotografias, e há sempre um rio-mar ao lado. A gente do Pará sorri com facilidade, ignora a subserviência e fala um português de primeira. O carimbó, legado indígena que mais tarde agregou a cultura africana, convida para a dança e faz a festa. E há um plus: com 250 gemas catalogadas, desenvolve-se por lá a biojóia, que reune também prata, ouro, madeira, fibra, presas de animais e chifres em peças surpreendentes pelo design e beleza. Um luxo doado pela floresta. É ver pra crer.
A Ilha de Marajó não existe. Foi a primeira coisa que me disseram quando entrei numa gaiola, embarcação para 600 pessoas, laterais abertas, lotada de índios. Na verdade, um arquipélago com 16 ilhas-municípios, maior do que a Holanda e a Suiça. Localizado na foz do rio Amazonas, local da pororoca - o encontro das águas do mar com as do rio -, que constroi ondas de até oito metros e até forjou um divertido campeonato de surf.
Berço da cultura indígena da Amazônia, rica em praias de rio, lagos, igarapés, dunas, apresenta uma fauna rica, muita floresta e o maior rebanho de búfalos do mundo, mais de 700 mil cabeças. Fiquei na Ilha do Soure, conheci a cerâmica marajoara de verdade, pintada com pó de pedra e impermeabilizada com pedaços de chifre, cujas peças, conforme a tradição, ajudam no amor, na saúde, na prosperidade e invalidam a inveja, visitei um curtume com ares medievais, e adorei meditar olhando as águas. Nem chiei quando o carapanã, primo do pernilongo, festejou minhas pernas, e morri de rir quando uma búfala subiu a rampa do meu hotel.
Viajão!

3 comentários:

  1. Nossa Ledura, que passeio gostoso. Bela postagem. Não imaginava que o Pará é tão agradável...Passei por lá há muito tempo e só lembro do mercado Ver o Peso.

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  2. Vc soube aproveitar essa viagem, amiga!
    Observou e se encantou, ao fazer uma leitura incrível dos fatos e da natureza.
    Viajão mesmo!

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  3. Belém, o Pará em si tem muitas riquezas, as frutas, a gastronomia, beleza natural, o acolhimento do povo, as pessoas não tem idéia do quanto o Pará é rico e o povo simpático e hospitaleiro, eu como já morei nas 5 regiões do Brasil conheço muito bem o que Belém tem.
    Sou Paraense com muito orgulho.
    Temos uma cultura muito forte, a arquitetura, músicos fantásticos.

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