terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ontem é hoje

Meu pai pediu a mão de minha mãe em casamento. Comigo isso também aconteceu. Com a minha filha, o mesmo.
Pela primeira vez na vida escrevo pedir a mão em casamento. E me soa estranho, sugerindo falta de intimidade e um acento excessivamente formal. Imagino que seja muito velha essa forma de falar. É portuguesa, com certeza, talvez do tempo imperial. Índios e africanos jamais diriam isso. E passou ilesa pelo tempo. Sobreviveu à modernidade vestindo roupa centenária.
Além da forma, o conteúdo também me surpreende por delegar ao homem de hoje a decisão sobre a vida em comum. No tempo em que meu pai casou, tudo bem. Afinal, cabia ao homem decidir o momento porque o provedor era ele. Ela, só o enxoval. Mas agora que se divide a despesa doméstica e a montagem da residência também, não há sentido econômico nessa história.
Mas as moças adoram o tal do pedido. As maduras também. Idem para as que já passaram por um ou mais casamentos. Imagino que significa qualquer coisa como a confirmação do amor dele, do que ela de fato significa para ele, a opção firme por ela. Um encantamento. Tudo bem, mas por que será que ainda perdura? Ora, poder, o poder que o homem ainda conserva mas que, no cotidiano do casamento, muitas vezes joga fora sem ao menos perceber.

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