domingo, 1 de fevereiro de 2009

a outra (2)

a outra (2)


Brasília, 1º de Fevereiro de 2009

Amiga,

Achei difícil nossa conversa de ontem.Você falou demais e não ouviu nada.Um monólogo.Emoção assim derruba qualquer um.Por isso, esta carta.
Você ficou descrevendo a tal da mulher pela idade, forma física,local de trabalho,essas coisas.Isso não diz nada e só me lembra concurso de miss,Marta Rocha, se não me engano, 1954. Esse negócio de se comparar, querer saber se você é mais ou menos interessante do que ela,não leva a lugar nenhum.Sem sacanagem,juro, tá parecendo rap:"Tá dominado, tá tudo dominado. Tá dominado, tá tudo dominado!"Sai dessa. Calma,mulher.
Olha, refleti sobre o assunto e conclui que não existe a outra, essa entidade xingável cheia de manha e maldade.Não,amiga,existem muitas outras.Isso mesmo, no plural, e cada uma de um jeito.
A primeira outra que me ocorre é aquela que,de fato, quer o seu lugar.E vai se empenhar,jogar pesado. Essa pode ser tudo, menos burra. Meu feeling me diz que são pouco numerosas.
Uma segunda que me ocorre é o oposto da primeira.Não quer de jeito nenhum seu homem numa vida a dois.Só mesmo uma trepadinha semanal,um orgasmo de nível,conversa boa e risadas.Está na fase quero ser livre e pula de galho em galho.Sem culpa.
Ah,tem aquela que coleciona raiva,recalque e é fixada em vingança.Insana mesmo. O filme preferido dela é "Atração Fatal".Ela o considera verdadeiramente inspirador.Mas com você,amiga, um negócio desses não aconteceria. Quem aguenta?
Já a do tipo baixa autoestima sem disfarce é bem diferente.Aceita um sorrisinho,uma palavrinha,uma balinha,a caminha morna. E agradece.Na verdade,pede esmola afetiva e,de quebra, sexual. Isto é, se pintar.Qualquer homem, um sol.Ela, um girassol.Vira na hora pro lado dele.
Mas há uma outra perigosa: ela namora. Estabeleceu previamente limites para a relação,ex -
cluindo compromisso, e aproveita,e muito, o espaço afetivo.Essa,me desculpe, mas ela me encanta.Vive o agore ri muito nos passeios e viagens.Só anda de mãos dadas.Lembra da outra do Drummond de quem só conseguiram arrancar uma frase? Ela disse qualquer coisa assim:"Ele só me pagava o almoço e o cafezinho.Éramos namorados."
Falar em pagar,amiga,tem aquela fixada em conta corrente.Me parece meio burrona mas se acha muito esperta.Vive "precisando" de alguma coisa.Homem aprendeu a bancar a mulher há séculos.Ultimamente, porém,anda costurando os bolsos.Essa aí costuma ser perua,insinuante e algumas encarnam aquela figura de mulher fatal.Mas também pode ser a mocinha começando a vida,para quem a orientação de alguém experiente vale muito.Tem homem que adora esses tipos e se sente poderoso em situações assim.E haja carteirada .Vale aquela historinha:" ...e eu tenho um senhor muito bom que me ajuda".
Não posso esquecer da outra queixosa.Chata pra caralho! Apaixonada,ardente,se entrega de corpo e alma.Sempre prepara um jantarzinho.Depois,cobrança.Chora,esperneia,diz que não suporta a vida desse jeito. Me veio à cabeça a Edit Piaf, com todo o respeito. Você viu o filme? A protagonista é fantástica, uma senhora atriz.
Tem ainda a rejeitada desde criancinha.Achava e acha ainda que, se a mãe não gosta dela,ninguém vai gostar.E sem perceber, inconsciente mesmo, só chega em casados para,em uma só cajadada, matar dois coelhos: a possibilidade de compromisso e a certeza de uma nova rejeição. Ela se move num espaço bem pequeno.E fica ali,aumentando a neura. Me dá pena.
Amiga, não pretendo esgotar essa questão numa carta.E, você sabe, não sou especialista em porra nenhuma.Mas achei que você desgrilaria um pouco. Afinal,a gente sempre pode minimizar.Clica aí no seu micro. O ombro continua aqui,à sua disposição. A gente se fala.Beijo, Leda.

3 comentários:

  1. Querida, lendo este post me veio a certeza que você realmente fazia falta nessa blogosfera que se expande e com mais qualidade.
    Beijos

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  2. Tão bom "te" ler. amiga jornalista/psicóloga. E que foto linda, que saudades!
    Beijos

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