quinta-feira, 20 de agosto de 2009

anônimo - o sortudo

No carro, parado diante do sinal de trânsito. Pessoas atravessam a rua. O olhar enxerga pouco além de passantes sem rosto e sem expressão e atenta para a chegada da luz verde que assegura o prosseguimento no caminho. Num shopping qualquer, movimento de sábado à tarde, a mesma coisa: os não identificados que andam por ali merecem atenção zero. No máximo, uma visão distraída.
Anonimato inexiste como meta ou desejo. Muito pelo contrário. Reconhecimento e fama, embora abstrações que por vezes se transformam em realidades passageiras, carregam um conteúdo de sonho. Muitos e muitos tentam marcar seu lugar no mundo, ser alguma coisa para si mesmos e, muito mais, para os outros.
O querer existir de modo ampliado, aquele negócio de fazer bonito, ganha a cada dia mais espaço. O consumo se expande e, para quem pode, torna-se diferenciado. Isso traz poder, embute significados e até se confunde com a velha e boa felicidade por um tempo geralmente muito curto, pois outros desejos se instalam rápido e movimentam a roda, exigindo nova rodada de satisfação.
Nos últimos anos, a sociedade aumentou sua reverência aos notáveis, o que estimulou a busca do lugar ao sol. Curiosamente, vale mais para os atores dos pequenos do que dos grandes feitos. A mídia dá o tom. Quer perceber melhor? Então nomeie os três últimos ganhadores do Nobel da Paz ou cite o nome daquele biólogo que descobriu, depois de 20 anos de pesquisa, que as células têm cérebro e que o meio ambiente pode transformá-las, o que retira dos genes a responsabilidade integral sobre o indivíduo. Claro que você não sabe. E a Angelina Jolie, continua casada com o Brad Pitt? Essa é fácil.
A dimensão da onda planetária em direção ao sucesso como fim, e não meio, pode ser medida por uma palavra hoje íntima de praticamente todas as línguas e dialetos, só ficando fora das pequenas comunidades embrenhadas no mato onde sequer existe aquela peça de museu, o rádio de pilha: celebridade. Assim: sentido estrito, rigorosamente pessoal. Não se falava nisso nas décadas de 1960, 1970, 1980. O mundo era outro. E o fenômeno tem semelhança com o processo digestivo, pois entra no mundo e sai do mundo. Muito vertiginosamente. A celebridade de hoje cederá espaço para a de amanhã e ponto. É fatal.
Enquanto assistimos ao processo delirante e, tudo indica, irreversível, me vem à mente o anonimato, praga do nosso tempo. Sorry, mas Andy Warhol errou. Nem todo mundo terá os 15 minutos de fama na vida. É gente demais. E o anônimo? Coitado, ninguém quer saber dele, este ser sem status e sem glamour social. Quase um pária.
Mas ele carrega um monte de vantagens em relação às celebridades. Por exemplo, pode fazer um sem número de besteiras e sacanagens e não ser mostrado em revista nenhuma. Pode cair bêbado na rua que ninguém fotografa. Pode trair e ser traído sem virar foco. Pode sair pela rua com o cabelo horrível e uma roupa de quinta.
O anônimo prescinde de um sorriso engatilhado para o mundo, não sente obrigação de ser lindo, e até com três quilos a mais em apenas um mês não merece a crítica de milhões de pessoas. Se nasce uma espinha no nariz dele, é chato, sim, mas dá para aguentar. Se cair no chão, todo o mundo ri, é claro, mas o tombo não vira manchete. No aeroporto, toma o avião sem problemas. Desconhecidos não puxam conversa com ele exibindo um ar de intimidade.
Ninguém se preocupa com o carro dele, o restaurante que frequenta, com sua roda de amigos, as viagens que faz, suas marcas preferidas, seu laptop. Mudou o corte de cabelo? Tudo bem. Sofreu um pequeno acidente de carro? Tudo bem. Se chega ao hospital para uma cirurgia, não usa terno e gravata e tampouco repórteres o cercam. Detem o privilégio de usar a mesma roupa em festas diferentes e até pode andar de ônibus por opção ou interesse sociológico. Além da família e meia dúzia de íntimos, o resto do mundo não dá palpite na sua vida. Casa, descasa e cria filhos sem nenhum julgamento público. O anônimo pode até ser feliz. E o que é melhor: em paz.

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