terça-feira, 25 de agosto de 2009

de perto o mito é normal

Se alguém alcança um patamar muito alto porque faz alguma coisa divinamente ou conhece em profundidade um assunto, e o reconhecimento do mundo já deixou de ser episódico para se tornar uma verdade fora de questão, um mito está criado. Curvar-se diante de pessoas assim não assombra nem cheira à bajulação. Freud, Buda, Bach, Picasso, Guimarães Rosa, Einstein e Jobim até poderiam dizer alguma coisa a respeito, se fosse possível. Mas nós podemos dizer por eles. Mais: reverenciá-los para sempre.
Vida de mito tem de um tudo para ser complicada pois o comum é vê-lo como uma pessoa do outro mundo, distante e inacessível. Informações essenciais sobre alguém dizem necessariamente respeito ao olhar e ao sentimento diante da vida, ao desenho do espaço afetivo, além de pinceladas da infância e da vida em família. Quase ninguém tem acesso a elas. O mais é factual, como os dados de documentos, escolas, obras, casamentos, filhos, amigos, locais de trabalho e moradia, bem fáceis de captar e divulgar. Biografias estouram nas livrarias, mas a maioria conta a vida já acabada.
Pensei nessas coisas ao ler no jornal que a advogada Anna Maria Reis pretendia comprar uma reprodução de azulejos de Athos Bulcão para a sua casa no Lago Sul. Por alguma razão não planejada, acabou topando com o próprio, que decidiu projetar um painel exclusivo para ela. Anna Maria não foi atrás dele. E não foi, provavelmente, porque Athos Bulcão era um mito. Que está para Brasília como Gaudí para Barcelona. Integra a paisagem do cerrado e, a cada dia, novas obras suas são descobertas, escapando até de inventários profissionais dados como prontos e completos.
É difícil bater na porta da casa do mito. A impressão é a de que ninguém a abrirá. Assim, as pessoas nem tentam. Lembra algo proibido, um sinal vermelho, uma barreira. E sempre surge a fantasia do preço descomunal. Mas, pensando bem, o mito consistente, respaldado por obras de peso, como é o caso de Athos Bulcão, não poderia olhar o outro de cima. Seria incoerência. Penso até que os grandes criadores enxergam e ouvem muito o outro. Afinal, não dá para ser maior sem enxergar o próprio chão e o povo que passa por ele. Como Portinari e Chico Buarque. O olhar colonizado é burro e sugere sentimento de inferioridade.
Athos, aliás, provou isso na prática com suas parcerias inusitadas. Nas grandes obras de Brasília, orientava sobre a colocação de azulejos e placas mas não levava o desenho pronto do conjunto. Assim, os pedreiros tinham um espaço efetivo de criação e liberdade. Adorou utilizar esse método. Gostava de falar sobre isso. Depois de sua morte, soube-se que deu aulas para uma doméstica que trabalhou anos com ele. Os quadros delas, em nada parecidos com a obra dele, foram conhecidos em uma exposição, prova do respeito e da não-interferência de Athos no processo criativo.
Ele também deu aulas de Desenho Objetivo na Faculdade e Arquitetura e Urbanismo da UnB, no tempo em que Oscar Niemeyer coordenava o curso e Darcy Ribeiro era reitor. Anos 1960. Com o apelido de professor monsenhor, em virtude da fala pouca e lenta, corpo redondo, mãos quase sempre cruzadas no alto da barriga, ganhou até um samba do arquiteto Alfredo Filgueiras Lima, o Lelé, bastante conhecido pelos projetos dos hospitais Sarah Kubitschek. Brincava com a suposta militância religiosa dele e era cantado sem restrições pela faculdade.
Além disso, abria as portas da sua casa modestíssima nas imediações da Avenida W-3 Sul nas tardes de sábado para receber um bando de alunos. Ali, muita conversa sobre estética, fotografia, cinema, livros cobiçados sobre história da arte, música ao vivo e, naturalmente, política. Já vivíamos os tempos da ditadura militar. Athos Bulcão foi também um dos primeiros brasilienses a se interessar por Pirenópolis e chegou a trazer de lá uma máscara da Festa do Divino. Não apenas trouxe. Ele a vestia naqueles sábados e passava horas com a cabeça dentro dela, pouco ligando se esquentava demais. Uma maluquice só.
Conto essas passagens como forma de mostrar que atrás no mito vive apenas uma pessoa como as outras, talento à parte. E sugerir que a aura de alguém especial não deve servir para que não se tente uma chegadinha. Aliás, Oscar e Pitanguy continuam no batente. Que tal um projeto para uma casa espetacular ou uma ajeitada no nariz?


































Um comentário:

  1. É Flora, você está se tornando um mito do texto saboroso. É quase como ouví-la. Degusta-se como se partícipe, perdoe a má palavra. Adorei. Além da concordância plena com o conteúdo, a lembrança de ter tangenciado um pouco da história dele na Galeria Referência. Memorável. Também o agradecimento pelo "Professor Monsenhor" na abertura de "Ethos em Athos" que, como talvez você se lembre, falava da necessidade de se colocar frente ao mito para ascender (na vida, na arte, na busca da perfeição): "só quem sabe de si é quem já se plantou junto ao templo de um ser superior...".

    Beijão.

    DUO

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